Quando falamos sobre autismo, grande parte das discussões se concentra no diagnóstico, nas terapias, nos direitos das pessoas autistas e nos desafios da inclusão. Tudo isso é fundamental. Mas existe uma realidade que continua pouco debatida e que precisa ganhar visibilidade, que é a conta invisível que milhares de mães atípicas pagam todos os dias.
Essa conta não aparece em boletos, ex atratos bancários ou planilhas financeiras. Ela é cobrada em noites mal dormidas, carreiras interrompidas, oportunidades profissionais adiadas, saúde física comprometida e desgaste emocional acumulado ao longo dos anos. É uma conta silenciosa, que muitas vezes recai quase exclusivamente sobre os ombros das mães.
De acordo com o Mapa Autismo Brasil, maior levantamento já realizado sobre o tema no país e divulgado em 2026 pelo Instituto Autismos, 92,4% dos responsáveis pelo cuidado de pessoas autistas são mulheres. O estudo também revelou que 30,5% dessas cuidadoras estão desempregadas ou sem renda própria, evidenciando o impacto que a dedicação integral ao cuidado pode ter na vida profissional e financeira dessas famílias.
O mais preocupante é que essa sobrecarga ainda costuma ser tratada como algo natural. Como se abrir mão da própria carreira, dos projetos pessoais e até do autocuidado fosse apenas uma consequência esperada da maternidade. Não deveria ser assim. Nenhuma sociedade pode considerar normal que uma mulher precise escolher entre garantir o desenvolvimento do filho e preservar sua independência financeira.
Na Associação dos Amigos dos Autistas do Estado do Espírito Santo (Amaes), convivemos diariamente com mães que enfrentam jornadas exaustivas. São mulheres que se transformam em gestoras de agendas, especialistas em legislação, mediadoras escolares, cuidadoras em tempo integral e defensoras incansáveis dos direitos dos filhos. Muitas vezes, tudo isso sem uma rede de apoio estruturada e sem políticas públicas capazes de responder à complexidade dessa realidade.
O diagnóstico de autismo costuma ser visto como um ponto de chegada para as famílias. Na prática, ele marca o início de uma jornada que envolve terapias, adaptações na rotina, desafios financeiros e a busca constante por oportunidades que favoreçam o desenvolvimento da pessoa autista. Por isso, quando falamos sobre inclusão, precisamos olhar também para quem cuida. Garantir atendimento, acolhimento e suporte às famílias é parte essencial da construção de uma sociedade mais inclusiva e preparada para atender às diferentes necessidades.
Nos últimos anos, houve avanços importantes no reconhecimento dos direitos das pessoas autistas. Ainda assim, as demandas das mães e cuidadoras seguem pouco visíveis. Muitas enfrentam dificuldades para permanecer no mercado de trabalho, manter a própria saúde e conciliar as inúmeras responsabilidades que assumem diariamente.
Amor, dedicação e resiliência fazem parte dessa caminhada, mas não substituem políticas públicas, redes de apoio e responsabilidade compartilhada. Cuidar de quem cuida também é uma forma de promover inclusão.
A conta invisível existe. E ela tem sido paga há muito tempo por mulheres que seguem fazendo o possível e, muitas vezes, o impossível. Está na hora de enxergarmos essa realidade e transformarmos esse custo individual em um compromisso de toda a sociedade.
Sobre o autor

Pollyana Paraguassú é presidente da Amaes – Associação dos Amigos dos Autistas do Estado do Espírito Santo.





