O modelo dos Horizontes de inovação(H1,H2,H3) foi criado pela McKinsey para empresas e instituições em geral. Inovar não significa só tecnologia, mas novos processos, produtos ou modelos de negócio. O modelo pode ser usado também por governos para organizar a sua gestão, privilegiando a ambidestria, ou seja, tratar do presente sem descuidar do futuro. Podemos mapear esse modelo para a economia do ES. Pela definição, o primeiro horizonte(H1) também é conhecido como inovação de sustentabilidade. Nesse horizonte, o foco está em solidificar o modelo de negócios atual sem se distanciar do core business. Isto é, otimizar ao máximo a operação e o retorno de produtos e serviços que a instituição já tem. Além disso, no H1 os projetos têm foco em trazer resultados no curto prazo e possuem um risco menor.
No ES podemos considerar no H1 a produção das grandes empresas, incluindo a Petrobras e as Junior Oils, a logística turbinada pelo ecommerce com seus galpões, a forte produção de café, suas indústrias de solúvel e as grandes cooperativas como Natercoop e Cooabriel, a atuação relevante das importadoras, a acelerada expansão da VPorts, a fábrica de papel da Suzano, o fundo soberano e a estruturação ainda incipiente dos processos de inovação digital.
O segundo horizonte(H2) está relacionado a ampliar o alcance da empresa, instituição ou governo para novos públicos, mercados ou produtos. Em outras palavras, é sobre explorar avenidas de crescimento que estejam próximas ao core business, em áreas adjacentes. Podemos incluir, sem ser exaustivo, o Porto da Imetame, a fábrica de automóveis da GWM, o briquete verde da Vale, o aço verde da ArcelorMittal, a retomada integral da operação da Samarco, a utilização plena da produção de gás natural, as oportunidades de negócio com o descomissionamento de plataformas de petróleo, o encaminhamento da solução para as BR101 e 262 e a Ferrovia 118 para Ubu e Rio, a diversificação de cargas do Portocel, as novas atividades em Praia Mole e a retomada do crescimento da produção de petróleo offshore.
O otimismo gerou a frase original do então presidente da ESGás, Fábio Bertollo, que lancei como título de um artigo aqui no ano passado, afirmando que o ES é o Brasil que dá certo, e que virou mantra repetido por muitos. Também a imagem do Convento da Penha decolando como o Cristo Redentor da capa da The Economist, que postei aqui há um mês, também já teve desdobramentos animados, sinalizando o crescimento da auto-estima capixaba.
Mas a euforia não deve deixar esquecer o que falta.
O H3 se caracteriza por pretender criar alternativas para negócios futuros. A possibilidade de um LTQ – Laminador de Tiras a Quente da ArcelorMittal atrair toda uma linha branca, o Porto Central gerando novo desenvolvimento no sul do estado, o projeto da Ferrovia Alysson Paolinelli indo para o centro oeste e outras muitas coisas que constam de documentos de futuro do planejamento do estado.
As perspectivas para H3, porém, ainda abordam a economia do século 20, claro que fundamental para sustentar parte do futuro, mas muito modestas para o que se vê pelo mundo como a nova economia digital. As universidades não se encontram entre as melhores do país, embora tenham alguns núcleos importantes em inteligência artificial, fotônica, nanotecnologia, biossegurança e veículos autônomos(o software do eVTOL, o carro voador da Embraer é feito em Vitória). Mas as startups ainda são poucas, e abordando temas simples na sua grande maioria, vivendo ainda dos poucos casos de sucesso como o PicPay, tanto que o Funses1( venture capital) não encontra quantidade
suficiente de startups merecedoras de investimento para os 250 milhões reservados. Outro caso exemplar de sucesso é a ISH, agora dividida em duas, mas que é a maior empresa de cybersegurança do país. É de elogiar, entretanto, a atuação da Fapes na oferta de inúmeros editais para apoio à ciência e às startups e a iniciativa do Sebrae com a ISX. Mas não temos quase nenhuma iniciativa em deeptechs, as startups que saem das bancadas de pesquisadores para resolver problemas relevantes em biotecnologia para o agro e saúde, ou nas hardtechs, baseadas em engenharia de ponta para problemas relevantes da indústria.
Por que a Cidade da Inovação, que se pretende como o Parque Tecnológico de Vitória ainda engatinha( louve-se a forte mobilização da Serra com seu parque). Por que nunca mais tivemos um centro de pesquisa como o da Xerox, sempre lembrado? O que Santa Catarina e Pernambuco têm que nós não temos?
Assim como as empresas, um estado inovador tem que estar preparado, investindo, apoiando, reorientando incentivos e criando ambiência simultaneamente para os três horizontes de inovação.





