Durante décadas, ouro e dólar foram os destinos mais buscados quando se fala em instabilidade. A lógica era simples: diante da incerteza, busca-se proteção. No entanto, o cenário atual começa a desafiar essa premissa: esses ativos não desapareceram do radar, mas perderam protagonismo. Por isso, entender esse movimento é essencial para decisões mais eficientes de investidores e empresários.
Parte relevante dessa mudança está no nível elevado dos juros reais ao redor do mundo, impulsionado pelo início dos conflitos no Oriente Médio e pelas políticas dos Estados Unidos. O ouro, por definição, não gera rendimento. Em um ambiente no qual a renda fixa oferece retornos reais consistentes, a decisão deixa de ser apenas sobre segurança e passa a envolver eficiência.
A própria dinâmica da inflação também ajuda a explicar esse movimento. Com as expectativas mais controladas nas economias desenvolvidas, não houve aquele cenário mais crítico que normalmente levaria investidores a buscar proteção com força. Como resultado, a demanda por ativos de proteção diminui no curto prazo.
Mas o ponto mais relevante não está apenas nos juros ou na inflação. Está na forma como o capital vem sendo alocado. Há uma mudança estrutural em curso: investidores estão migrando de uma postura de proteção passiva para uma lógica de diversificação ativa. A preocupação deixa de ser apenas evitar perdas e passa a incorporar estratégias mais sofisticadas de crescimento.
Para os brasileiros, esse movimento amplia possibilidades, mas também eleva o nível de exigência. O acesso a ativos internacionais, combinado com maior previsibilidade em alguns mercados, reduz a dependência de instrumentos tradicionalmente defensivos e exige maior critério na construção de portfólio.
A perda de protagonismo das proteções não significa ausência de risco. Significa mudança de ciclo. Posicionar-se exclusivamente para cenários extremos pode gerar ineficiência em um ambiente que já não responde da mesma forma.
O desafio, portanto, não é abandonar a proteção, mas ajustar seu papel dentro da estratégia. Em um cenário global ainda marcado por tensões geopolíticas, como guerras e conflitos que impactam rapidamente energia, câmbio e fluxos de capital, a volatilidade pode voltar com força e sem aviso. Isso intensifica os movimentos nos mercados e exige respostas mais rápidas e estratégicas. Ativos defensivos continuam importantes, mas como complemento, não como foco principal. Para empresários, proteger patrimônio segue relevante, mas a diferença estará na capacidade de investir bem, se adaptar ao cenário e tomar decisões com agilidade em um ambiente cada vez mais instável.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
Sobre o autor

Leticia Porto Moreto está cursando Administração na Fucape, é consultora financeira da W1 Consultoria e membro do IBEF Academy.





