Além do Divã
Não existe saúde mental sem garantia de direitos
Foto: Magnific

Nos últimos anos, aprendemos a falar mais sobre ansiedade, depressão e saúde mental. Entendemos isso como um avanço importante para a saúde pública. No entanto, existe um risco nessa conversa: acreditar que todo sofrimento é individual e nasce “dentro” da pessoa.

Por vezes, essa crença pode nos levar a todo tipo de estigma, como se o problema fosse interno (uma fraqueza ou falta de vontade), e a pessoa que desenvolve um transtorno precisa ser tratada individualmente.

As recentes pesquisas em saúde mostram que as condições sociais influenciam diretamente os processos de adoecimento. A desigualdade, a pobreza, a exclusão social e a falta de acesso a direitos produzem vulnerabilidades que atravessam a saúde mental.

Vale destacar que a escuta clínica é fundamental. A questão é não reduzir o sofrimento como se fosse algo pessoal, pois nem sempre ele pode ser compreendido apenas pela história individual de alguém, considerando que também existem relações sociais envolvidas.

O que estamos questionando é sobre como pensar saúde sem centralizar os transtornos apenas no sujeito. Como garantir saúde mental quando faltam as condições mínimas para viver?

Não existe saúde quando o trabalho humilha, adoece e explora, sem moradia digna, sem segurança alimentar. Não existe saúde mental quando o futuro parece cada vez mais distante.

Eis uma realidade que produz sofrimento sem que suas causas sejam centradas no indivíduo. Não é em vão que os transtornos se proliferam cada vez mais. No mínimo, devemos desconfiar se isso não se associa diretamente com as relações de poder estabelecidas em nossa sociedade.

Não podemos transformar problemas coletivos em fracassos individuais, nem desrespeitar a singularidade da dor de cada um.

Vivemos em uma época que cobra produtividade, desempenho e felicidade permanente. Se algo dá errado, a culpa costuma recair sobre o indivíduo. Ele não se esforçou o suficiente. Não se organizou o suficiente. Não foi resiliente. Mas nem toda dor é resultado de uma falha pessoal.

Algumas dores são respostas humanas a condições desumanas.

Por isso, falar de saúde mental também é falar de políticas públicas, trabalho, educação, moradia, renda e cidadania. O sofrimento psíquico possui uma dimensão subjetiva, mas também uma dimensão social e política.

A clínica tem muito a oferecer. Mas ela precisa reconhecer essas questões e não pode carregar sozinha problemas que pertencem à sociedade. Porque não existe felicidade sem dignidade, nem saúde mental quando faltam direitos básicos para sustentar a vida.

Foto de Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.

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