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O déficit nominal e o custo da falta de credibilidade
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O Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (IBEF-ES) é a principal entidade que reúne empresários e executivos de finanças do estado. Com o compromisso de fortalecer o ecossistema financeiro, econômico e de gestão empresarial capixaba, une forças para gerar conhecimento, fomentar conexões e impulsionar entregas relevantes para o mercado.
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O avanço do déficit nominal brasileiro para patamares historicamente elevados não deve ser tratado apenas como um dado contábil. Ele revela um problema mais profundo: a interação negativa entre fragilidade fiscal, juros altos, expectativas deterioradas e baixo crescimento. O déficit nominal inclui o resultado primário e o pagamento de juros da dívida pública. Por isso, quando os juros sobem e a dívida é elevada, a conta cresce rapidamente. 

O Brasil vive uma combinação particularmente difícil. As despesas públicas continuam rígidas, a arrecadação não tem sido suficiente para estabilizar a trajetória da dívida e a taxa básica de juros permanece elevada. Mesmo em momentos de aumento de receita, o endividamento segue avançando. Isso indica que o problema fiscal brasileiro não é apenas conjuntural. Ele é estrutural.

Há ainda dois agravantes importantes. O primeiro é a perda de confiança em parte das premissas associadas ao Arcabouço Fiscal. Quando metas são revistas, despesas continuam pressionadas e o equilíbrio depende de receitas extraordinárias, o mercado passa a duvidar da capacidade de estabilização da dívida. O segundo é o perfil relativamente curto da dívida pública. Em momentos de desconfiança, investidores exigem juros mais altos e prazos menores. Isso torna o custo fiscal mais sensível ao aumento do prêmio de risco.

Essa dinâmica cria um círculo vicioso. A piora fiscal eleva a percepção de risco. O aumento do risco pressiona os juros futuros. Juros mais altos ampliam a despesa financeira do governo. O déficit nominal aumenta. E a percepção fiscal piora novamente.

O impacto sobre a inflação também é relevante. Quando a política fiscal perde credibilidade, o Banco Central precisa trabalhar mais para produzir o mesmo efeito desinflacionário. A deterioração fiscal pode pressionar o câmbio, contaminar expectativas e manter a inflação projetada acima da meta. Nesse cenário, a política monetária fica sobrecarregada. Os juros precisam permanecer elevados por mais tempo, não apenas por causa da inflação corrente, mas também pela falta de confiança na trajetória das contas públicas.

As consequências atingem famílias, empresas e o próprio governo. O crédito fica mais caro, o consumo desacelera, investimentos são adiados e projetos produtivos perdem atratividade. Empresas que dependem de capital de longo prazo, especialmente na indústria, construção civil, varejo e infraestrutura, passam a operar em ambiente mais defensivo. O governo, por sua vez, gasta mais com juros, reduzindo espaço para investimentos em áreas capazes de elevar produtividade.

Para o Espírito Santo, esse quadro também importa. Uma economia aberta, exportadora e integrada à logística nacional sente os efeitos de juros altos, câmbio volátil, desaceleração da atividade e incerteza sobre investimentos privados. Cadeias industriais, comércio exterior e projetos de infraestrutura dependem de previsibilidade.

O déficit nominal recorde é, portanto, um sintoma de um problema maior. Sem credibilidade fiscal, o país paga mais caro para financiar sua dívida, exige mais esforço da política monetária e reduz sua capacidade de crescer. A saída passa por responsabilidade fiscal, eficiência do gasto e compromisso consistente com a sustentabilidade da dívida. Não basta prometer equilíbrio. É preciso convencer a economia de que ele será entregue.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.


Sobre o autor

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Felipe Storch Damasceno é economista-chefe do IBEF-ES.

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