O Espírito Santo alcançou a primeira colocação nacional em gestão pública e foi apontado como o estado que mais avançou na dimensão econômica nos últimos três anos, segundo o Ranking de Competitividade dos Estados divulgado pelo Centro de Liderança Pública. O resultado é relevante em qualquer contexto, mas ganha importância ainda maior diante da transição da Reforma Tributária sobre o consumo.
A reforma muda profundamente a lógica de competição entre os estados brasileiros. Ao reduzir gradualmente o peso da tributação na origem e deslocar a arrecadação para o destino, ela diminui a importância dos incentivos fiscais tradicionais como instrumento de atração de empresas. Em outras palavras, a guerra fiscal perde força e os fundamentos econômicos ganham peso.
Nesse novo ambiente, competitividade regional dependerá cada vez menos de benefícios tributários e cada vez mais de infraestrutura, segurança jurídica, eficiência regulatória, capital humano, logística, inovação e qualidade da gestão pública. Estados que conseguirem reduzir custos sistêmicos e oferecer previsibilidade terão vantagem na atração de investimentos.
Para o Espírito Santo, essa mudança tem dupla face. De um lado, o Estado historicamente utilizou sua localização estratégica, sua vocação portuária e mecanismos tributários para atrair operações industriais, logísticas e de comércio exterior. Parte desses instrumentos perderá relevância ao longo da transição. De outro lado, o Espírito Santo vem fortalecendo exatamente os atributos que tendem a ganhar importância: equilíbrio fiscal, capacidade de investimento público, gestão eficiente e ambiente econômico organizado.
A boa gestão pública reduz incertezas. Quando o setor privado enxerga previsibilidade, agilidade administrativa e capacidade de execução, os projetos se tornam menos arriscados. Isso importa ainda mais em um país marcado por burocracia, insegurança jurídica e elevado custo operacional.
O pós-reforma exigirá uma agenda ampla de produtividade. Não bastará manter as contas públicas equilibradas. Será necessário avançar em infraestrutura logística, integração ferroviária, expansão portuária, digitalização de processos públicos, licenciamento eficiente, qualificação profissional e inovação. Empresas passarão a comparar estados não apenas pela carga tributária, mas pelo custo total de operar em cada território.
O Espírito Santo possui ativos importantes nessa disputa. Sua escala territorial favorece coordenação entre governo, municípios e setor privado. Sua posição logística permite integração com cadeias nacionais e internacionais. Sua estrutura portuária e seus projetos de infraestrutura podem ampliar a capacidade de atração de investimentos em indústria, energia, comércio exterior e serviços especializados.
Mas o resultado recente no ranking não deve gerar acomodação. A reforma tributária também trará pressões sobre estados produtores e exportadores líquidos. A perda gradual de vantagens fiscais precisará ser compensada por ganhos permanentes de produtividade econômica. O desafio será transformar boa gestão em desenvolvimento concreto.
A mensagem central é clara: no Brasil pós-reforma, competir será menos uma questão de conceder incentivos e mais uma questão de oferecer ambiente econômico eficiente. Nesse ponto, o Espírito Santo parte de uma posição favorável. Mas preservar essa vantagem exigirá continuidade institucional, planejamento de longo prazo e capacidade de transformar eficiência pública em competitividade privada.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
Sobre o autor

Felipe Storch Damasceno é economista-chefe do IBEF-ES.





