Arena Digital
Eu nasci há dez mil anos atrás
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Sandro Rizzato

Sandro Rizzato assina a coluna Arena Digital sobre tecnologia, inteligência artificial e empreendedorismo, escrita sem deslumbramento e sem discursos prontos, com a proposta de confrontar ideias, questionar o hype e analisar o impacto real da IA no trabalho, nos negócios e no comportamento humano. Com olhar crítico e provocativo, parte do princípio de que a tecnologia deve ampliar a capacidade humana, não substituí-la, e convida o leitor a sair do piloto automático digital para refletir sobre as transformações que influenciam decisões, produtividade, atenção e qualidade de vida.

Raul Seixas cantava que nasceu há dez mil anos atrás e que viu praticamente tudo. Reis, impérios, guerras, milagres, pecadores e santos. Se estivesse entre nós em 2026, talvez acrescentasse mais um verso à música. Não porque tenha surgido um novo império ou uma nova religião, mas porque estamos assistindo a uma transformação capaz de mudar a forma como a humanidade trabalha, aprende, produz riqueza e toma decisões.

O curioso é que muita gente ainda não percebeu.

Quando Juscelino Kubitschek lançou o famoso slogan “cinquenta anos em cinco”, o Brasil sonhava em acelerar seu desenvolvimento. Estradas surgiam, indústrias eram instaladas e uma nova capital nascia no meio do cerrado. Era uma época em que o futuro parecia chegar mais rápido do que o normal. Setenta anos depois, a inteligência artificial nos coloca diante de algo ainda mais impressionante. Estamos vivendo cinquenta anos em cinco. Em alguns setores, talvez cinquenta anos em meses.

A diferença é que essa revolução não está sendo construída com concreto, aço ou asfalto. Ela está sendo construída com algoritmos.

Enquanto você lê este artigo, sistemas de inteligência artificial estão escrevendo textos, produzindo campanhas publicitárias, criando vídeos, desenvolvendo softwares, analisando exames médicos, auxiliando pesquisas científicas e automatizando processos empresariais. Empresas inteiras estão sendo reorganizadas para aproveitar essa nova realidade. Algumas estão aumentando produtividade. Outras estão reduzindo custos. Muitas estão criando modelos de negócio que simplesmente não existiam há dois anos.

Mesmo assim, existe uma parcela da sociedade determinada a ignorar o que está acontecendo. É o profissional que acredita que sua experiência passada o torna imune às mudanças. É o gestor que ainda mede produtividade pela quantidade de horas que alguém permanece sentado em uma cadeira. É a empresa que investe em tecnologia para continuar fazendo exatamente as mesmas coisas que fazia em 2010. É o órgão público que substitui o carimbo físico por um carimbo digital e chama isso de inovação.

A humanidade saiu da pedra lascada para a inteligência artificial em alguns milhares de anos. Algumas organizações ainda não conseguiram sair do Excel. E não há problema algum no Excel. O problema começa quando ele deixa de ser uma ferramenta e passa a ser o plano estratégico da companhia.

A história mostra que as grandes revoluções raramente pedem autorização para acontecer. O automóvel não realizou audiência pública com os fabricantes de carroças. A internet não pediu licença ao fax. A Netflix não consultou a Blockbuster e lojas de locação de filmes de vídeo cassete. O Youtube não pediu licença as redes de TV aberta. O Uber não pediu licença para os taxistas e o mesmo com Airbnb com os hotéis. A inteligência artificial também não está preocupada em convencer ninguém. Ela simplesmente avança.

Talvez o maior erro seja imaginar que estamos diante de uma disputa entre humanos e máquinas. Não estamos. A verdadeira disputa acontece entre pessoas que aprenderam e aprenderão a trabalhar com inteligência artificial e pessoas que continuam fingindo que ela é apenas uma moda passageira. O risco não está em ser substituído por uma máquina. O risco está em ser ultrapassado por alguém que decidiu utilizá-la.

Daqui a algumas décadas, os historiadores provavelmente olharão para este período com surpresa. Verão uma geração que teve acesso às ferramentas mais poderosas da história da humanidade. Verão empresas capazes de multiplicar produtividade, conhecimento e criatividade. E também verão milhões de pessoas que escolheram continuar fazendo as coisas exatamente da mesma forma.

Talvez ninguém tenha realmente nascido há dez mil anos atrás. Mas basta entrar em algumas empresas, instituições e repartições para ter a sensação de que o calendário parou por lá e que ainda estão na idade da pedra lascada.

O problema é que, desta vez, o mundo não vai esperar. A inteligência artificial não está chegando. Ela já chegou. E enquanto alguns ainda discutem se a revolução existe, ou quando a rype da IA vai acabar, outros estão ocupados demais construindo o próximo capítulo dela.

Como sempre acontece na história, os maiores riscos não correm por conta de quem erra o caminho. Correm por conta de quem nem percebe que a estrada mudou.

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