Ele era britânico, amava os vinhos e, justamente por conta disso, revolucionou o mundo da enologia. Se você hoje entra em um supermercado e pode escolher entre rótulos do Velho Mundo (França, Espanha, Portugal, Itália e outros países europeus) e do Novo Mundo (Chile, Argentina, Estados Unidos, Austália, Brasil e por aí afora), isso se deve muito a Steven Spurrier. Um apaixonado por vinhos “marginais” ou “de boutique”, feitos em pequenas quantidades, Spurrier levou à frente uma ideia até então impensável: organizar uma competição entre vinhos franceses e norte-americanos. Era 1976, e a ideia era incluir a prova entre as festividades do bicentenário da independência dos Estados Unidos.

Spurrier teve dificuldades em ambos os países. Os produtores norte-americanos não queriam levar a sério o britânico. Reconheciam sua atividade como conhecedor, divulgador e comerciante de vinhos, mas muitos resistiam em entregar seus vinhos para a competição, com receio de serem ridicularizados diante da maior qualidade dos rótulos franceses. E na França, embora não tenha sido difícil convencer alguns grandes degustadores para a prova, a imprensa não se interessou. Apenas um jornalista, George Taber, do escritório francês da revista Time, apareceu. Havia outra questão curiosa: os juízes franceses nunca haviam provado vinhos da Califórnia. Aliás, mal sabiam localizar o estado no mapa dos EUA.
Bem, o resultado da degustação foi espantoso. George Taber escreveu um artigo para a Time sob o título de “Julgamento de Paris”. Esse também foi o título do livro publicado por ele, considerado básico para quem gosta de vinhos. E também de um filme delicioso de se ver, em cartaz até recentemente no Telecine. Detalhes sobre as aventuras de Spurrier não podem ser dados ou entregaríamos um spoiller desnecessário (mas adianto algo: só a história da “transformação” do Chateau Montelena já vale o filme). Importante são as consequências do julgamento: depois dele e de sua versão “chilena”, a degustação de Berlim, realizada em 2004, barreiras foram quebradas e o mundo do vinho nunca mais foi o mesmo, principalmente para quem pode, agora, entrar em um supermercado ou loja e provar rótulos vindos das mais diversas partes do planeta.
Nascido em 1941, Steven Spurrier morreu em suas vinhas em West Country, na Inglaterra. A causa de sua morte não foi divulgada. Estava rodeado de parentes e, lógico, de amigos, os maiores presentes proporcionados pelas taças de brancos e tintos.





