Além do Divã
Por que sua família rejeita a ideia de fazer terapia?
Foto de Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.
Terapia com psicólogo
Escuta qualificada e sigilo profissional ajudam no processo de autoconhecimento e transformação pessoal. Foto: FreePik
“Minha família não aceita fazer terapia. Todos acham que pagar para alguém te ouvir não faz sentido.” Ouvi essa frase recentemente e acredito que ela representa a realidade de muitos brasileiros. Infelizmente, é muito comum não encontrar apoio entre os próprios familiares, que muitas vezes são totalmente avessos à ideia da psicoterapia. Isso se deve a alguns fatores que vou abordar a seguir — sendo o último o mais difícil de lidar. O primeiro deles é o desconhecimento sobre o que é psicoterapia. Muitos confundem a atuação de um psicólogo ou psicanalista com uma simples conversa, como aquelas que se pode ter com amigos ou familiares. Eles entendem que terapia é apenas desabafar, algo que se pode fazer com qualquer pessoa, sem gastar dinheiro. É como se fosse fazer o que sempre se fez — mas, desta vez, pagando. No entanto, escuta e acolhimento são ferramentas profissionais poderosas no processo de análise, muito diferentes de uma conversa em que alguém dá palpites ou faz julgamentos. Na terapia, você não fala com o outro da mesma forma que em uma conversa comum — você se comunica com você mesmo, com seus desejos, afetos e verdades. É um processo que provoca deslocamentos e transformações, à medida que você se escuta e se responsabiliza pela própria vida. O segundo ponto é que muitos familiares acreditam que você deveria resolver seus problemas sozinho e repetem: “na minha época não existia esse negócio de terapia. Isso é coisa para gente fraca ou louca!”. Muitas vezes, quem nunca recebeu ajuda não sabe como oferecer ajuda. O estigma de que fazer terapia é para pessoas “loucas” ainda é comum. Mas, na verdade, loucura é não se cuidar. A terapia é vista como um gasto, e não como investimento. Em terceiro lugar, vale lembrar que muitas pessoas têm medo de confiar no outro. Quando desabafam com amigos ou familiares, correm o risco de serem julgadas ou de terem suas histórias transformadas em fofocas. Isso impede que compreendam que, no atendimento psicológico, existe sigilo profissional e acolhimento, sem julgamento. Por fim — e talvez o mais difícil de encarar —, algumas famílias não desejam sua mudança. A psicoterapia pode representar uma ameaça à manutenção de valores e tradições familiares que atravessam gerações. Nem sempre será na família que você encontrará apoio para se reposicionar no mundo, reescrever sua história e ressignificar experiências. LEIA MAIS:

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