Além do Divã
Por que repetimos nossos traumas com as pessoas mais próximas?
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Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.

Exemplo 01: Você teve um dia irritante no trabalho (ou faculdade), mas não reagiu aos problemas como gostaria. Então, ao chegar em casa, trata com pouca paciência e muita arrogância as pessoas ao seu redor, mas sem mencionar seu real incômodo. Em um golpe de lucidez alguém lhe diz: “você está com problemas, não soube resolver e está descontando em nós!”.

Exemplo 02: Uma jovem mulher em uma relação abusiva consegue romper os vínculos de modo a jamais se reencontrar com a pessoa. Em seguida, ela logo inicia um novo romance, pois aprendeu que ficar sozinha por um tempo é um castigo ou sinal de fracasso. Associa amor à obediência desde sua tenra infância. No entanto, em seu novo relacionamento age de modo ativo (e abusivo) o que ela sofreu de modo passivo anteriormente. Seu novo amor, infeliz, percebe. Um novo rompimento! E isso se estende para um próximo relacionamento. Ela inicia sua psicoterapia, compreendendo que ainda estava precisando cuidar de feridas que achou estarem resolvidas.

Exemplo 03: Uma criança é agredida por outra com maior porte fisico na escola. As agressões são escondidas e sem flagrante dos adultos desatentos e irresponsáveis. A mesma criança, que sofrera, repete as agressões com seu adorável cachorro em casa. Não satisfeita, transfere golpes em seu vizinho e grande amigo, que conta com um tamanho idêntico ao seu.

Eis o que Freud chama de deslocamento. A partir dele há uma transferência inconsciente da experiência traumática. Onde não há palavra e elaboração, comparece uma repetição em ato. Em geral, é com as pessoas mais próximas isso se manifesta. Em outros termos, ocorre quando há amor.

É um pedido de ajuda. Lacan diz que toda demanda é de amor. E isso também acontece no tratamento com psicanálise, o “amor transferencial”. O amor, portanto, abre espaço para que o inconsciente fale. Mas precisa ser escutado e acolhido. Eis, portanto, uma cura por meio do amor!

Alexandre Brito
Psicólogo clínico, professor e palestrante
(27) 99943-1968

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