O índice de violência contra as mulheres continua alto. Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência em 2025. Dados do Instituto de Pesquisa DataSenado mostram que 6 em cada 10 mulheres sofreram agressões há menos de seis meses, e 21% relatam que a violência se mantém há mais de um ano.
Esses números, por si só, já são preocupantes, mas dois aspectos dessa pesquisa chamam ainda mais atenção.
O primeiro diz respeito à própria noção de violência. Muitas mulheres não se reconhecem como vítimas ou não identificam certas situações como violência. Isso acontece especialmente em casos de agressões verbais, humilhações, manipulações, ameaças e constantes depreciações. Há também as agressões que acontecem no ambiente digital, a chamada violência online, que muitas vezes é tratada como algo menor, quando na verdade pode causar danos profundos.
O segundo ponto é igualmente preocupante: 71% das mulheres sofrem agressões na frente de outras pessoas, inclusive crianças. Ainda assim, em cerca de 40% dos casos, nenhuma das testemunhas adultas presentes oferece qualquer tipo de ajuda ou apoio à vítima.
Estamos diante de um quadro grave para a vida e para a saúde mental das mulheres. Quando a violência não é reconhecida como tal, abre-se espaço para algo ainda mais perverso: a culpabilização da própria vítima. Como se ela tivesse provocado, exagerado ou interpretado mal aquilo que sofreu.
Isso revela algo mais profundo do que episódios isolados. Existe uma cultura que ainda normaliza certas formas de agressão e de dominação sobre as mulheres. Comentários humilhantes, controle sobre a vida da parceira, ameaças veladas e desqualificações constantes acabam sendo tratados como algo “normal” dentro de muitas relações.
Nesse cenário, o velho ditado “em briga de marido e mulher, não se mete a colher” ainda aparece, muitas vezes disfarçado, como justificativa para a omissão. Embora cada vez mais questionada, essa ideia continua funcionando como uma proteção simbólica ao agressor. Quando ninguém intervém, quando ninguém oferece apoio, a violência ganha espaço para continuar.
De certo modo, essa omissão também participa do problema. Quando a sociedade se cala, ela acaba ajudando a sustentar um ambiente onde a agressão se repete e se perpetua.
Outro ponto importante é evitar explicações simplistas que reduzem esse problema a um diagnóstico individual. Tornou-se comum rotular homens violentos como “narcisistas” ou usar termos da psicologia para explicar suas atitudes. Embora esses conceitos existam no campo clínico, usá-los de forma automática pode desviar o foco do que realmente está em jogo. A violência contra a mulher não é apenas um problema de personalidade ou de saúde mental de um indivíduo. É também um problema cultural, social e estrutural.
Quando tratamos a agressão apenas como resultado de um transtorno individual, corremos o risco de transformar algo social em um caso isolado e, às vezes, até em uma espécie de atenuante para quem agride.
Por isso, enfrentar essa realidade exige mais do que respostas individuais. Exige mudanças profundas.
Isso passa pela educação dos meninos, pelo fortalecimento de políticas públicas e pela construção de uma cultura que não tolere a violência contra as mulheres em nenhuma de suas formas. Não deveríamos viver em uma sociedade onde mulheres precisam andar com um “arsenal de defesa” (spray de pimenta, alarmes, aplicativos de segurança) para se proteger.
O verdadeiro avanço não será quando as mulheres estiverem cada vez mais equipadas para se defender, mas quando os homens forem educados para não agredir.
Enquanto a violência for tratada como algo privado, banal ou inevitável, continuaremos apenas reagindo às suas consequências. O desafio é outro: construir uma sociedade onde a agressão contra mulheres deixe de ser tolerada, relativizada ou silenciada.
Porque combater a violência não é apenas proteger quem sofre.
É também transformar a cultura que permite que ela aconteça.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Sim Notícias.





