Existe um tipo de elogio profissional que, dependendo do momento da sua carreira, deveria acender um alerta: “ninguém faz isso tão bem quanto você”. É ótimo ouvir isso, até você perceber que continua sendo chamado para fazer exatamente a mesma coisa há cinco, dez, quinze anos.
É natural que isso aconteça, porque o mercado tende a devolver aquilo que você mostra que sabe fazer. Você resolve bem um determinado problema, as pessoas reconhecem, começam a te procurar por aquilo, você faz mais vezes, fica ainda melhor e, depois de algum tempo, aquela competência passa a ser associada diretamente ao seu nome. Parece o cenário perfeito e, durante uma fase da carreira, provavelmente é. O problema começa quando você decide avançar e percebe que todo mundo continua contratando uma versão sua que você já não quer colocar no centro.
E aqui aparece uma contradição interessante: quanto melhor você faz alguma coisa, mais difícil pode ser deixar de fazê-la. Não apenas porque existe uma demanda externa, mas porque também é muito confortável permanecer no lugar em que somos excelentes. Ali você tem domínio, reconhecimento, segurança e, muitas vezes, dinheiro. Você sabe quanto tempo leva, conhece os atalhos, prevê os problemas e entrega com uma qualidade que dificilmente conseguiria reproduzir imediatamente em uma atuação nova. Sair desse lugar significa aceitar voltar a experimentar, estudar, errar e lidar com a possibilidade de ainda não ser tão bom naquilo que escolheu construir.
Por isso, às vezes, a nossa própria excelência vira um esconderijo. A gente diz que o mercado ainda nos procura por determinada competência, mas continua aceitando todas as oportunidades que reforçam exatamente essa percepção. Diz que quer ocupar outro lugar, mas dedica a maior parte do tempo àquilo que já domina. Quer ser reconhecido por uma nova atuação, mas continua mostrando quase exclusivamente o trabalho antigo. E aí existe um desalinhamento entre a carreira que você diz querer construir e a carreira que suas escolhas continuam alimentando.
Perceba que eu não estou falando sobre abandonar competências ou apagar partes da sua trajetória, muito pelo contrário. Tudo aquilo que você aprendeu continua sendo patrimônio profissional e pode, inclusive, fazer com que você execute a próxima etapa de uma forma que outra pessoa não conseguiria. A diferença está em compreender que uma competência pode continuar fazendo parte da sua carreira sem permanecer no centro dela.
Você pode ter sido um excelente executor e usar esse conhecimento para liderar quem executa, pode dominar profundamente uma operação e transformar essa experiência em estratégia ou pode ter passado anos prestando determinado serviço e, em outro momento, transformar o método que desenvolveu em consultoria, ensino ou mentoria. O conhecimento permanece, mas muda de função dentro da sua carreira.
Isso exige uma decisão que nem sempre é confortável, porque você precisa começar a dizer não para algumas coisas que ainda sabe fazer muito bem, não porque deixaram de ter valor, mas porque ocupam tempo, energia e espaço demais dentro de uma trajetória que você está tentando levar para outro lugar.
E tem mais: enquanto você continuar resolvendo tudo aquilo que já sabe resolver, dificilmente vai descobrir o que consegue fazer depois disso. A maturidade profissional também passa por reconhecer quando uma competência já cumpriu o papel de te trazer até determinado lugar. Você agradece, incorpora, leva junto, mas não precisa continuar construindo toda a sua identidade ao redor dela. Porque uma carreira não avança apenas pelo acúmulo de coisas que você aprende a fazer, ela também avança quando você desenvolve critérios para decidir quais delas ainda merecem ocupar o centro.
Pílula Dourada
Têm competência que você não precisa perder, precisa apenas tirá-la do centro para descobrir o que vem depois.





