Tribunal orienta Estado e municípios sobre 53 medidas preventivas contra seca, ondas de calor e chuvas extremas; inação pode gerar emergências e responsabilização
O Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo (TCE-ES) acaba de publicar um documento que deveria estar na mesa de todos os prefeitos capixabas e nos gabinetes do Governo do Estado. O tema agora não tem haver com trâmites de legislação ou análises de muitos números, mas sobre o El Niño – fenômeno que pode provocar alterações no regime de chuvas e nas temperaturas em todo território capixaba até o ano que vem.
Mas o que os Conselheiros têm haver com isso? A resposta é até simples: o documento traz recomendações práticas para cada área da gestão pública de municípios e órgãos estaduais. A mensagem direta é para o planejamento eficiente para minimizar efeitos para a população do Espírito Santo.
E o trabalho não é pequeno também, pois a nota recomendatória traz mais de 50 orientações para enfrentar os efeitos do El Niño até 2027. Tudo foi analisado e aprovado na sessão desta terça-feira (07), com publicação no Diário Oficial de Contas nesta quarta.
O que dizem os estudos?
A preocupação do Tribunal se baseia em estudos técnicos. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) indicam que o El Niño deste ano pode ser classificado como “super”, com aquecimento superior a 2°C acima da média no Pacífico Central. O relatório também usa dados da agência norte-americana NOAA e do serviço meteorológico da Austrália.
Os pesquisadores do Cemaden fazem uma ressalva que merece atenção: o El Niño, por si só, não causa desastres. O que ele faz é aumentar a probabilidade de eventos extremos – e quanto mais vulneráveis estiverem os municípios, maior tende a ser a gravidade.
Por isso, o documento é endereçado ao governador, aos prefeitos e a todas as autoridades que respondem pela Política de Proteção e Defesa Civil.
Para o Sudeste e o Centro-Oeste, o cenário desenhado pelo Cemaden é de comprometimento da estação chuvosa, com temperaturas acima da média. Isso afeta a recuperação dos reservatórios, eleva o risco hidrológico em bacias estratégicas e favorece ondas de calor mais intensas. No Espírito Santo, o estresse hídrico e a irregularidade das chuvas são apontados como os principais riscos. Isso quer dizer temos a possibilidade de seca e estiagem prolongada
A combinação entre ondas de calor, alta umidade e entrada de frentes frias também pode provocar pancadas de chuva violentas. E o sul do Estado é uma das áreas mais preocupantes, por causa da topografia acidentada, do assoreamento dos rios e da ocupação desordenada em áreas de risco – situação que já foi documentada pela Defesa Civil Estadual e pelo Incaper depois da tragédia de Mimoso do Sul.
Tem mais impacto?
Os impactos, porém, vão além do clima. Seca prolongada e chuvas isoladas podem aumentar a proliferação do Aedes aegypti e, com isso, os casos de dengue. O sistema de saúde pode ficar sobrecarregado. As ondas de calor comprometem o aprendizado nas escolas. A insegurança alimentar e a pobreza tendem a se agravar. A assistência social terá que atender mais famílias.
O que fazer então?
O TCE-ES não se limitou a listar problemas. O documento traz recomendações práticas para cada área da gestão pública. Na saúde, orienta a intensificar a vigilância entomológica, capacitar agentes de endemias, manter estoques de medicamentos e reforçar o monitoramento de doenças associadas a enchentes. Na educação, sugere mapear escolas em áreas de risco, criar programas de climatização das salas de aula e, em casos extremos, usar as unidades como abrigos temporários. Na assistência social, pede a identificação prévia de famílias em áreas vulneráveis, o fortalecimento do atendimento a moradores de rua em dias de calor extremo e o acompanhamento das famílias atingidas depois dos eventos climáticos.
O Tribunal também recomenda que os gestores revisem os planos de contingência, treinem as coordenadorias municipais de Defesa Civil, façam contratações preventivas e reservem recursos no orçamento para responder à estiagem ou às inundações. Campanhas públicas sobre uso racional da água, prevenção da dengue e disposição correta de lixo também estão na lista.
A nota do TCE-ES chega num momento crucial e será também um balizador.
O assunto é tão importante que, o tema já mobilizou o Governo do Estado que também se planejou para apresentar um conjunto de trabalhos e tarefas de órgãos estaduais para monitoramento e ação, em caso de necessidade, num cenário de influência do El Niño. As recomendações do TCE-ES confrontadas com o plano do Estado trazem ótimos complementos e detalhamentos mas tiveram trabalhos em instâncias diferentes.
Por essa convergência, creio que o enfrentamento dos cenários mais estressantes não terá improviso ou governantes surpreendidos. O Espírito Santo mostra que lições muito duras vindas do clima realmente foram entendidas e absorvidas para serem traduzidas como planejamento.
Como o próprio Tribunal disse “a inação transformará riscos previsíveis em emergências caras e pode até levar à responsabilização de gestores omissos”. O documento não pode ser chamado de recado, mas está dado.
E Quais são as 53 recomendações?
Abaixo, as recomendações estão listadas por tópicos:
1. Planejamento e Atualização dos Instrumentos de Gestão
Revisão dos Planos Municipais de Contingência (Plancon) para estiagem, ondas de calor e chuvas extremas, com ampla divulgação
Ativação e treinamento das Coordenadorias Municipais de Defesa Civil (Comdec) e articulação com órgãos estaduais e nacionais
Ativação ou constituição dos Núcleos Comunitários de Defesa Civil (Nupdec)
Elaboração ou revisão de ações de contingência para saneamento básico, prevendo cenários de escassez hídrica e inundações
Criação de normas pelas Agências Reguladoras sobre segurança, contingência e racionamento de água
Elaboração ou revisão dos Planos de Contingência da Saúde (Plancon-Saúde)
Criação do Plano de Contingência Escolar (Plancon-Escolar) com protocolos para eventos extremos
Elaboração ou revisão do Plano de Contingência da Assistência Social
Inclusão de protocolos de resgate e atendimento emergencial à fauna nos planos de contingência
2. Contratações Preventivas
Planejamento antecipado de insumos e serviços, evitando contratações emergenciais por omissão
Elaboração de estudos técnicos preliminares (ETP) para identificar as melhores soluções técnicas e econômicas
Observância rigorosa dos requisitos legais ao utilizar o Sistema de Registro de Preços (SRP)
3. Reserva e Adequação Orçamentária
Inclusão de metas específicas na LDO de 2027 para o enfrentamento de impactos climáticos
Reserva de dotações específicas na LOA de 2027 para áreas como defesa civil, saúde, educação e assistência social
Estabelecimento de Reserva de Contingência compatível com o histórico de gastos emergenciais
Busca de cofinanciamento através do Fundo Cidades e fundos federais
Priorização de intervenções baseadas na natureza para aumentar a resiliência urbana
4. Infraestrutura Urbana e Rural
Diagnóstico e manutenção preventiva dos sistemas de água para reduzir perdas
Ampliação da capacidade de armazenamento de água nos municípios
Desassoreamento preventivo de rios e córregos
Limpeza de sistemas de drenagem, calhas e cursos d'água
Manutenção de equipamentos de alerta e monitoramento meteorológico
Monitoramento contínuo de áreas de risco geológico
Poda preventiva através do diagnóstico da arborização urbana
Implementação de projetos de infraestrutura resiliente e adaptada ao clima
Articulação para protocolos de racionamento equitativos
5. Vigilância em Saúde, Controle Vetorial e Preparação da Rede Assistencial
Mapeamento de unidades de saúde em áreas de risco e criação de planos de continuidade
Intensificação da vigilância entomológica (LIRAa) antes do período crítico
Reforço no quadro de Agentes de Endemias e sua devida capacitação
Mobilização social para eliminar criadouros e monitoramento de abrigos
Monitoramento de agravos causados por ondas de calor, especialmente em grupos vulneráveis
Revisão dos fluxos de atendimento na Atenção Primária e Urgência
Manutenção de estoque mínimo de medicamentos estratégicos e insumos
Fortalecimento do atendimento a pessoas em situação de rua durante calor extremo
Reforço da vigilância epidemiológica pós-inundações (ex: leptospirose)
Articulação da rede de Atenção Psicossocial para apoio às famílias atingidas
6. Ações de Preparação e Respostas do Setor Educacional
Mapeamento de escolas em áreas de risco e definição de rotas de evacuação
Suprimento de água potável em escolas com histórico de escassez
Programas de climatização escolar, integrando controle de temperatura e umidade
Planejamento para ensino remoto ou híbrido em caso de fechamento de escolas
Protocolos para dias de calor extremo, como horários alternativos de aula
Uso de escolas como abrigo apenas em casos excepcionais, com autorização expressa
7. Ações de Preparação e Respostas para o Setor Socioassistencial
Identificação prévia de famílias em áreas de vulnerabilidade climática
Definição de espaços adequados para abrigos temporários, garantindo itens de higiene e alimentação
Abordagem social intensificada para moradores de rua visando prevenir desidratação
Treinamento periódico das equipes de assistência social (Cras/Creas) para emergências
Estratégias de acompanhamento pós-desastre para reconstrução de vidas
8. Comunicação, Capacitação e Articulação Interinstitucional
Campanhas sobre uso racional da água e prevenção da dengue
Capacitação integrada das equipes de diversas áreas para agir em cenários combinados
Realização de simulados de evacuação com moradores e alunos
Capacitação de brigadas de incêndio, especialmente em áreas de preservação
Orientação à população sobre riscos de queimadas e disposição correta de resíduos
Alinhamento formal e compartilhamento de dados entre todos os órgãos envolvidos







