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Mudanças na geografia econômica dos municípios da Grande Vitória
A Grande Vitória tem passado por diversas mudanças na sua geografia econômica. Foto: Divulgação

A região conhecida popularmente como Grande Vitória, formada pelos municípios de Cariacica, Vila Velha, Vitória e Serra, tem passado por diversas mudanças na sua geografia econômica. Durante muito tempo, Vitória concentrou parte expressiva do dinamismo capixaba, sendo tanto a capital político-administrativa do Espírito Santo quanto considerada o espaço mais relevante em termos de geração de renda e atividade econômica no estado.

Essa importância não desapareceu, mas os dados sugerem que os demais municípios da região ampliaram seu peso relativo em diferentes dimensões. A pergunta, portanto, diz respeito ao que mudou na dinâmica econômica da região, diante da percepção, corroborada pelos dados, de que Vitória parece crescer menos que o seu entorno.

O primeiro sinal vem do PIB municipal. De acordo com dados do IBGE, em 2010, Vitória respondia por 24,8% do PIB estadual e ocupava a primeira posição entre os municípios capixabas. Em 2023, último dado da série histórica disponível, sua participação caiu para 13,5%, uma redução de mais da metade do peso relativo que tinha na economia estadual, assim como passou a ocupar à segunda posição, ultrapassada pela Serra.

O recorte mais recente torna a comparação ainda mais acentuada. Entre 2020 e 2023, o PIB real do Espírito Santo cresceu 24,4%, o da Serra cresceu 23,9%, o de Vila Velha 28,5%, o de Cariacica 58,4%, enquanto o de Vitória acumulou queda real de 9,1%. Em termos mais intuitivos, pode-se interpretar que enquanto a economia estadual e os municípios vizinhos avançaram, a capital ficou para trás.

O mercado formal de trabalho reforça essa ideia de perda de participação relativa. De acordo com dados da RAIS/Ministério do Trabalho, Vitória segue liderando em renda formal agregada, vínculos e estabelecimentos, mas também perdeu participação nessas dimensões. Na renda formal agregada, a participação caiu de 42,78% para 37,76% entre 2010 e 2020, e para 30,05% em 2025. No que se refere aos vínculos formais, a participação caiu de 27,05% para 21,43% entre 2010 e 2025. Nos estabelecimentos formais, passou de 17,50% para 13,76%. Em síntese, houve redução da participação de Vitória em termos de volume de renda, vínculos e estabelecimento formais no âmbito estadual.

Há ainda uma dimensão qualitativa importante, conhecida por complexidade econômica. O Instituto DataViva, vinculado à UFMG, com base em metodologia internacional, calcula e divulga o Índice de Complexidade Econômica (ICE-R), que busca mensurar dois aspectos da economia de uma localidade: 1) quantos tipos de bens e serviços uma localidade produz; 2) quanto esses produtos são ‘exclusivos', ou seja, produzidos por poucas localidades. Este indicador mostra que Vitória perdeu tanto pontuação no índice, saindo de 0,90 em 2010 para 0,88 em 2020 e 0,79 em 2024, último ano da série histórica, quanto posição relativa entre os municípios brasileiros analisados, passando da 31ª para a 56ª em 2020, e alcançando a 130ª em 2024, sendo também ultrapassada pela Serra neste último ano. Esse dado amplia o debate, tendo em vista que não se trata apenas de quanto cada município produz, como, por exemplo, mensurado pelo PIB, mas também da natureza e da complexidade das atividades que vêm ganhando espaço no município.

A partir desse conjunto de evidências, a Grande Vitória parece caminhar para uma configuração mais policêntrica, com múltiplos polos de dinamismo econômico em vez de um único núcleo dominante, em que a Serra tem se consolidado como grande fronteira de expansão econômica, com Vila Velha ainda preservando peso relevante e Cariacica com forte potencial de crescimento, observados nestes e em outros indicadores, como por exemplo, na participação no Valor Agregado Fiscal.

Vitória continua importante, mas menos dominante. Embora, por um lado, essa mudança suscite questionamentos sobre por que Vitória não acompanhou o ritmo dos municípios vizinhos e da própria economia capixaba, também deve ser interpretada pelo fato de que uma metrópole mais distribuída pode ser mais dinâmica, mais integrada e menos dependente de um único núcleo. Ou seja, o problema surge quando a perda relativa de protagonismo da capital não vem acompanhada de uma estratégia clara de reposicionamento econômico.

Vitória tem território limitado, alto grau de urbanização e pouca margem para crescer por expansão física. Por isso, precisa crescer por densidade, isto é, fazer mais com o espaço que já tem: mais empresas por bairro, mais empregos e serviços de alto valor agregado por metro quadrado, além de investir em inovação, qualificação urbana e capacidade de atrair atividades mais sofisticadas, o que parece não ter ocorrido nos últimos anos.

Os dados não autorizam uma narrativa de declínio absoluto, mas também não permitem uma leitura complacente. A capital perdeu peso relativo em diversos indicadores econômicos, suscitando questionamentos: qual será o papel de Vitória em uma Grande Vitória cada vez mais policêntrica? Diante de pouca ação nos últimos anos, conseguirá reconstruir a sua importância com uma nova agenda econômica?


Sobre o autor

 

Raphael Rodrigues é doutor em Economia e conselheiro do Corecon-ES

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