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Água: o ativo mais estratégico do mundo
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Larissa Oliveira Rêgo

Diretora-presidente interina da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)

Foto: Magnific

A história da humanidade sempre foi escrita às margens da água. As grandes cidades surgiram próximas aos rios, a produção de alimentos sempre dependeu, e continua dependendo, da disponibilidade hídrica e o desenvolvimento econômico e social de qualquer nação está diretamente ligado à capacidade de gerir esse recurso de forma inteligente e sustentável.

Estamos falando de um ativo que até poucas décadas atrás era visto como abundante e garantido. Hoje, sabemos que é muito mais que isso: é estratégico, essencial e precisa estar no centro das discussões.

Os efeitos das mudanças climáticas, o crescimento populacional, a expansão das atividades econômicas e a pressão sobre os recursos naturais têm tornado os eventos extremos mais frequentes e intensos. Secas prolongadas, enchentes severas e crises de abastecimento deixaram de ser exceções e passaram a fazer parte da realidade de diversos países.

Esse cenário levou organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), a alertarem para o avanço da insegurança hídrica em diversas regiões do planeta e para os riscos de uma verdadeira falência hídrica em áreas incapazes de garantir água em quantidade e qualidade para suas populações e atividades produtivas.

O Brasil ocupa uma posição singular nesse contexto. Somos uma das maiores potências hídricas do mundo, concentrando cerca de 12% da disponibilidade de água doce superficial do planeta. Abrigamos a maior bacia hidrográfica do mundo, a Amazônica, além de extensos sistemas hídricos que sustentam a agricultura, a geração de energia, a navegação, o abastecimento humano e inúmeras atividades econômicas.

Essa riqueza natural faz com que o país seja observado com atenção por todo o mundo. Em um cenário global de crescente preocupação com a segurança hídrica, o Brasil reúne condições únicas para contribuir com soluções, compartilhar experiências e exercer protagonismo nos debates sobre desenvolvimento sustentável e adaptação climática.

Mas a abundância não elimina os desafios. A água está distribuída de forma desigual pelo território nacional. Enquanto algumas regiões possuem elevada disponibilidade hídrica, outras convivem historicamente com escassez, irregularidade de chuvas e conflitos pelo uso da água. Além disso, as mudanças climáticas têm ampliado a ocorrência de eventos extremos, exigindo maior capacidade de planejamento, monitoramento e resposta por parte do poder público.

A segurança hídrica também está diretamente relacionada à conservação dos nossos biomas. Florestas, nascentes, áreas úmidas e ecossistemas como Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica e Pampa desempenham papel fundamental na regulação do ciclo da água, na recarga de aquíferos, na manutenção da qualidade da água e na redução dos impactos de secas e inundações. Proteger esses ambientes naturais é, portanto, investir na disponibilidade de água para as pessoas, para a produção de alimentos, para a geração de energia e para o desenvolvimento sustentável.

É nesse contexto que atua a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Nossa missão é promover a gestão integrada dos recursos hídricos e contribuir para a segurança hídrica do país. Isso envolve uma série de atividades que vão da coordenação da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), responsável pelo monitoramento de rios e chuvas em todo o território brasileiro, até à emissão de outorgas para uso da água, à regulação da operação de reservatórios estratégicos, à fiscalização da segurança de barragens e à implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH).

Também cabe à ANA produzir e disponibilizar informações que subsidiam decisões de governos, empresas, produtores rurais, pesquisadores e da sociedade. Em um cenário de crescente variabilidade climática, informações rápidas e de qualidade tornam-se essenciais para antecipar riscos e orientar ações preventivas.

A experiência recente demonstra isso com clareza. Eventos como as enchentes históricas no Rio Grande do Sul, as secas severas registradas na Amazônia e no Semiárido e as crises hídricas enfrentadas por grandes regiões metropolitanas evidenciam que investir em monitoramento, planejamento e governança é muito mais eficiente do que lidar apenas com as consequências dos desastres.

Por essa razão, a segurança hídrica deve ser entendida como uma política de Estado. Ela exige integração entre diferentes níveis de governo, participação dos usuários da água, fortalecimento dos comitês de bacia, investimentos em infraestrutura, proteção dos mananciais e ampliação da capacidade de adaptação às mudanças climáticas.

Nenhuma instituição é capaz de enfrentar sozinha os desafios impostos pela nova realidade climática. A construção de soluções passa necessariamente pela cooperação entre órgãos públicos, setor produtivo, comunidade científica, organismos internacionais e sociedade civil. A gestão das águas é, por essência, uma agenda de articulação e construção coletiva.

Em um mundo que discute cada vez mais os riscos da escassez e da insegurança hídrica, a água deixa de ser apenas um recurso natural e se consolida como um ativo estratégico para o desenvolvimento, a competitividade econômica e a qualidade de vida das populações. O Brasil tem todas as condições para liderar esse debate e transformar sua riqueza hídrica em um diferencial para o desenvolvimento sustentável. Para isso, será fundamental ampliar investimentos em monitoramento, inovação, infraestrutura, preservação ambiental e governança, transformando nossa riqueza hídrica em segurança e prosperidade para as próximas gerações.

O desafio está colocado. E a ANA seguirá trabalhando para que a água continue sendo um vetor de prosperidade, inclusão, segurança e futuro para todos os brasileiros.

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