O Espírito Santo sempre viveu uma curiosa contradição histórica. Está em posição estratégica desde 1535, possui uma das localizações logísticas mais privilegiadas do país, concentra portos relevantes, diversidade econômica, indústria, agronegócio, petróleo, minério e turismo crescente, mas quase nunca ocupou o imaginário nacional como protagonista. Durante décadas, o estado pareceu existir numa espécie de faixa intermediária entre relevância econômica e invisibilidade política. Grande demais para ser ignorado. Pequeno demais para monopolizar atenções. Enquanto São Paulo vendia a imagem de locomotiva do Brasil, Minas exportava influência política e o Rio continuava vivendo de sua vitrine global, o Espírito Santo seguia muitas vezes tratado como um elegante corredor de passagem para riquezas alheias.
As caravelas chegaram primeiro. O protagonismo, nem sempre.
Talvez justamente por isso exista algo extremamente simbólico acontecendo agora. Pela primeira vez em muito tempo, o Espírito Santo parece começar a compreender que o século XXI alterou profundamente as regras do jogo econômico. Durante quase toda a história moderna, tamanho populacional, concentração industrial e peso político determinaram desenvolvimento. Agora, velocidade de adaptação tecnológica começa a valer mais do que gigantismo administrativo. E nesse cenário, estados menores podem se tornar mais eficientes do que estruturas públicas mastodônticas que passam metade do tempo produzindo burocracia para justificar a própria burocracia.
Em uma palestra realizada no evento do IBEF-ES em Vitória, em 2024, o publicitário Nizan Guanaes resumiu de forma brilhante uma característica histórica do Espírito Santo ao afirmar que o estado “fez um pacto com o anonimato”. A frase, carregada de ironia e lucidez, talvez explique muito da trajetória capixaba. Enquanto parte do Brasil transformava marketing político em política pública e manchete em modelo de gestão, o Espírito Santo crescia quase em silêncio. Sem vender ao país uma fantasia permanente de protagonismo, construiu portos, logística, equilíbrio fiscal, capacidade industrial e ambiente de negócios enquanto estados mais barulhentos colecionavam holofotes, crises fiscais e inaugurações de promessas recicladas.
Enquanto parte do Brasil ainda debate inteligência artificial como se fosse uma mistura de ameaça apocalíptica com filtro de aplicativo para gerar foto engraçada, o Espírito Santo começou silenciosamente a estruturar um ecossistema tecnológico que merece atenção nacional. O Governo do Estado, através da Fapes, anunciou recentemente mais de R$ 200 milhões em investimentos em ciência, tecnologia e inovação. O programa Nova Economia Capixaba abriu novos aportes milionários para projetos envolvendo empresas e instituições científicas. O Tecnova III passou a financiar startups capixabas com recursos relevantes para aceleração, desenvolvimento e internacionalização. A Seedes consolidou-se como secretaria e programa público de aceleração e desenvolvimento de startups. Empresas juniores passaram a receber incentivo direto. O Ifes avança em projetos ligados à chamada Cidade da Inovação. A Ufes amplia centros de pesquisa em áreas estratégicas. Até trabalhos de conclusão de curso começaram a ser tratados não apenas como documentos acadêmicos esquecidos em repositórios digitais, mas como potenciais modelos de negócio.
Isso parece detalhe técnico para quem ainda enxerga inovação apenas como marketing de palco corporativo com telão de LED e palestrante dizendo “disrupção” a cada quinze minutos. Não é. Existe uma mudança silenciosa de mentalidade acontecendo. Durante décadas, o Espírito Santo exportou commodities enquanto exportava também boa parte dos seus cérebros. Jovens se formavam aqui e partiam para São Paulo, Florianópolis ou Belo Horizonte como se o futuro tivesse CEP obrigatório em outros estados. O recado implícito era cruel: produzir inteligência no Espírito Santo até podia acontecer, mas transformar inteligência em desenvolvimento parecia tarefa reservada aos grandes centros.
Talvez isso esteja começando a mudar.
A inteligência artificial cria uma dinâmica extremamente perigosa para economias acomodadas e extremamente promissora para ecossistemas ágeis. A IA não pergunta qual estado tem a maior avenida financeira, o maior aeroporto ou o político mais barulhento em Brasília. Ela pergunta quem consegue integrar universidade, setor privado, governo, formação técnica e velocidade de execução. Num mundo movido por dados, eficiência começa a valer mais que gigantismo. E eficiência é justamente algo que estruturas menores conseguem desenvolver com mais facilidade quando existe coordenação minimamente séria.
Existe também uma ironia histórica quase poética nisso tudo. Durante séculos, o mar representou a mais avançada tecnologia de integração econômica do planeta. Quem dominava rotas marítimas dominava riqueza, comércio e influência global. Foi assim que as caravelas portuguesas chegaram ao Espírito Santo em 1535. Hoje, os novos oceanos são digitais. As novas rotas comerciais passam por dados, automação, inteligência artificial e infraestrutura tecnológica. As velas deram lugar aos servidores. As caravelas viraram datacenters. E talvez o Espírito Santo esteja percebendo antes de muita gente que não precisa competir para ser o maior estado do Brasil. Precisa competir para ser um dos mais inteligentes.
Claro que ainda existe exagero institucional, powerpoint colorido e muito discurso tentando vender “ecossistemas inovadores” que às vezes produzem mais coffee breaks do que tecnologia aplicada. O Brasil continua especialista em transformar qualquer auditório com puff colorido em “hub de inovação”. Mas existe uma diferença importante acontecendo no Espírito Santo: continuidade. Editais surgem em sequência. Programas começam a conversar entre si. Universidades se aproximam do mercado. Startups deixam de parecer excentricidade de nicho e começam a ocupar espaço econômico real.
Talvez o Espírito Santo esteja vivendo algo maior do que um ciclo de inovação. Talvez esteja vivendo sua própria redescoberta histórica. Não mais pelas mãos de navegadores portugueses desembarcando na Prainha, em Vila Velha, mas por jovens treinando algoritmos dentro de laboratórios, incubadoras, empresas juniores ou até mesmo com micros e notebooks em quartos de jovens talentos espalhados pelo estado. Durante séculos, o Espírito Santo ajudou o Brasil a exportar matéria-prima. Talvez agora esteja começando a exportar algo mais sofisticado e mais valioso: inteligência.
As caravelas colocaram o Espírito Santo no mapa. Talvez os algoritmos finalmente o coloquem no futuro.





