Recentemente um paciente citou o trecho de uma música durante a sua sessão de psicoterapia. Era um adolescente com gostos musicais bem específicos. Ele disse que esse trecho expressava a vida dele naquele momento e, logo em seguida, abriu um aplicativo para tocar a música. Cantou do início ao fim. Nesse momento, não foi ele que tocou a música, foi a música que tocou ele.
Vale destacar que a música tem uma relação profunda com a saúde mental. Porque ela não atua apenas como entretenimento, mas toca diretamente aquilo que, muitas vezes, não conseguimos simbolizar em palavras. E você sabia que a música pode ser um recurso utilizado no tratamento psicológico?
Afinal, a música ocupa um lugar curioso em nossas vidas: seja nas celebrações, nas despedidas, nas lembranças afetivas, ou mesmo no silêncio que precisamos interromper. Ela nos atravessa sem pedir licença e pode funcionar como uma espécie de fotografia, basta ouvir e retornamos a uma memória, a um amor ou a uma dor.
Na clínica ela pode comparecer de modo a compor o processo psicoterapêutico. Há pessoas que conseguem falar de si com as músicas que escutam, mas não conseguem falar diretamente sobre seus afetos. Em alguns casos, a playlist é como parte da expressão do que somos, e pode ajudar a falar sobre experiências da vida. A música, então, pode funcionar como uma via de acesso ao desejo, aos afetos e angústias difíceis de elaborar.
Repare nas músicas que você mais tem escutado ultimamente e veja a relação que elas possuem com sua vida atualmente.
Estudos mostram que experiências musicais estão associadas à melhora do humor, fortalecimento de vínculos sociais, expressão emocional, socialização e sensação de pertencimento. Isso é importante porque o sofrimento psíquico pode produzir isolamento e perda da capacidade de trocar afetos, de compartilhar experiências e até de sentir prazer nas pequenas coisas do cotidiano. A música, em muitos casos, reaparece justamente como uma tentativa de reorganização subjetiva. Não é raro alguém dizer: “essa música me salvou numa fase difícil”. E ainda que isso pareça exagero, existe ali uma verdade importante.
A musicoterapia surge exatamente nesse ponto: utilizando a música não apenas como fundo sonoro, mas como instrumento terapêutico. Diferente da simples escuta musical cotidiana, a musicoterapia trabalha de maneira técnica e clínica com sons, ritmos, improvisações, canto e experiências musicais que ajudam o sujeito a elaborar emoções, construir vínculos e acessar experiências difíceis de serem verbalizadas.
Pesquisas mostram efeitos positivos da musicoterapia em ansiedade, depressão, sofrimento psíquico grave, pacientes hospitalizados e até em contextos de UTI. Alguns estudos apontam redução de estresse fisiológico, melhora da comunicação emocional e ampliação da interação social.
Mas talvez um dos aspectos mais interessantes da música esteja no cotidiano comum. Nem toda experiência terapêutica acontece dentro de um consultório. Às vezes, ela acontece quando alguém coloca uma música para suportar um dia difícil. Quando canta sozinho dirigindo. Quando escuta uma canção antiga e consegue chorar algo que estava endurecido há anos. Quando encontra numa letra aquilo que ainda não conseguia dizer.
A psicanálise nos ensina que o sujeito não é feito apenas de razão. Somos atravessados por linguagem, afetos, lembranças, faltas e experiências inconscientes. A música toca justamente essa dimensão menos racional da existência. Ela pode organizar afetos, produzir identificação e, em muitos casos, oferece contorno ao nosso caos.
Ao mesmo tempo, é importante dizer que música não substitui tratamento psicológico ou psiquiátrico quando necessário. Existe uma romantização perigosa da ideia de que “a arte cura tudo”. Não cura tudo. Mas pode ser uma ferramenta extremamente potente de cuidado, elaboração emocional e prevenção em saúde mental.
Em tempos marcados por excesso de estímulos, ansiedade constante e relações cada vez mais aceleradas, talvez a música permaneça como um dos poucos espaços onde ainda conseguimos sentir algo de maneira verdadeira. E isso, por si só, já possui um enorme valor clínico e humano.





