Direito e Saúde
Planos de saúde coletivos e os 9,9% de reajuste em 2026: o que está por trás dos números
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Eduardo Amorim

Com mais de 17 anos de atuação em Direito Médico, da Saúde e Saúde Suplementar, Eduardo Amorim é referência nacional na área, com forte atuação institucional e acadêmica. Atualmente, preside a Comissão Especial de Direito Médico do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e a Comissão de Direito Médico da OAB/ES, além de exercer o cargo de Conselheiro Estadual. Também integra a Comissão Nacional de Direito Médico da Associação Brasileira de Advogados, contribuindo para o desenvolvimento técnico e ético do setor.
Foto: Magnific

Os planos de saúde coletivos registraram reajuste médio de 9,9% no início de 2026, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). É o menor aumento em cinco anos, mas ainda representa mais que o dobro da inflação oficial do período, medida pelo IPCA em 3,81%. Esse contraste já diz muito sobre o problema que enfrentamos.

Para entender o cenário, é preciso primeiro compreender como funcionam os planos coletivos. Diferentemente dos planos individuais e familiares, cujo reajuste é definido pela própria ANS, os contratos coletivos são negociados diretamente entre operadoras e as empresas ou associações contratantes. O consumidor final, na prática, não participa dessa negociação. Ele recebe o resultado pronto.

Os números mostram uma diferença importante conforme o tamanho do contrato. Empresas com até 29 beneficiários enfrentaram reajuste médio de 13,48%, enquanto contratos com 30 ou mais vidas registraram alta de 8,71%. A boa notícia é que cerca de 77% dos usuários estão nos contratos maiores, onde o aumento foi menor. Mesmo assim, qualquer reajuste acima da inflação pesa no orçamento de famílias e empresas.

O setor, por sua vez, apresentou desempenho financeiro expressivo em 2025. As operadoras registraram receita total de R$ 391,6 bilhões e lucro líquido de R$ 24,4 bilhões, o maior já registrado na história do setor. Ao mesmo tempo, o Brasil chegou a 53 milhões de vínculos em planos de saúde em março de 2026, crescimento de quase um milhão de contratos em relação ao ano anterior.

Esses dados colocam uma questão importante sobre a mesa: se o setor cresce, registra receitas recordes e lucra como nunca, por que os reajustes seguem sistematicamente acima da inflação?

A resposta das operadoras aponta para os custos assistenciais, como despesas hospitalares, procedimentos médicos e o aumento na frequência de uso dos serviços. Esses fatores são reais e precisam ser considerados. No entanto, o debate não pode ignorar o outro lado: a capacidade de pagamento dos consumidores e das empresas.

Reajustes elevados têm consequências concretas. Podem levar ao cancelamento de contratos, reduzir o número de beneficiários e transferir mais pessoas para o sistema público de saúde, que já opera sob forte pressão. Não se trata de negar às operadoras a sustentabilidade financeira, mas de garantir que essa sustentabilidade não venha às custas da exclusão de quem mais precisa de cobertura.

O caminho passa pela transparência e pela previsibilidade. Consumidores e empresas precisam entender como os reajustes são calculados e ter acesso a informações claras sobre os critérios utilizados. Sem isso, a relação contratual fica desequilibrada, e quem perde é sempre o lado mais vulnerável.

O debate sobre o reajuste dos planos de saúde não é apenas econômico. É também um debate sobre acesso, sobre justiça e sobre o modelo de saúde que queremos construir no Brasil.

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