A transição energética começa a redesenhar também a geografia da produção de fertilizantes. A busca por segurança alimentar, segurança energética e descarbonização industrial vem acelerando projetos capazes de substituir combustíveis fósseis por energia limpa na produção de insumos agrícolas. Nesse contexto, o projeto da empresa britânica Atome no Paraguai, utilizando energia hidrelétrica de Itaipu para produzir fertilizantes verdes, mostra que a nova economia de baixo carbono começa a sair do campo conceitual para ganhar escala industrial.
A relevância desse movimento para o Brasil é evidente. O país é uma potência agrícola, mas ainda depende fortemente da importação de fertilizantes, especialmente nitrogenados. Essa dependência expõe o agronegócio brasileiro à volatilidade do gás natural, ao câmbio, aos conflitos geopolíticos e a choques logísticos internacionais. Quando o preço da energia sobe ou uma guerra afeta grandes fornecedores, o custo de produção no campo brasileiro também é pressionado.
A produção de fertilizantes verdes altera parte dessa lógica. Ao utilizar eletricidade renovável para produzir hidrogênio verde por eletrólise e, a partir dele, amônia verde, torna-se possível reduzir a dependência do gás natural. O tema não é apenas ambiental. É também econômico, industrial e estratégico. Fertilizantes de menor emissão podem reduzir vulnerabilidades externas, ampliar previsibilidade de custos e melhorar a competitividade de cadeias agrícolas em mercados cada vez mais atentos à pegada de carbono.
O Brasil possui vantagens importantes nessa disputa. A matriz elétrica nacional tem forte participação renovável, combinando hidrelétricas, solar, eólica e biomassa. Em determinados momentos, o sistema convive com excedentes ou necessidade de melhor aproveitamento da geração. Transformar energia limpa em produto industrial de maior valor agregado pode ser uma nova etapa de industrialização verde.
O Espírito Santo aparece nessa agenda como plataforma potencialmente estratégica. O Estado combina infraestrutura portuária, vocação logística, inserção internacional e possibilidade de expansão de fontes renováveis. O potencial eólico do sul capixaba, associado à integração com portos e corredores industriais, pode criar condições favoráveis para projetos ligados a hidrogênio verde, amônia verde e fertilizantes sustentáveis.
Mas potencial natural não basta. Projetos dessa magnitude exigem planejamento institucional, segurança jurídica, licenciamento previsível, disponibilidade hídrica, infraestrutura energética, logística eficiente e formação de mão de obra. A disputa global por investimentos verdes será vencida por regiões capazes de transformar recursos em projetos concretos, economicamente viáveis e institucionalmente seguros.
O caso paraguaio deve servir como alerta e inspiração. A América do Sul possui energia limpa, recursos naturais e base agrícola relevante. O desafio é converter essa vantagem em indústria, tecnologia e valor agregado. Para o Espírito Santo, a oportunidade existe, mas dependerá de coordenação entre setor público, empresas, sistema financeiro e instituições de pesquisa. A economia verde não premiará apenas quem tem vento, sol, água ou portos. Premiará quem conseguir organizar esses ativos em estratégia de desenvolvimento.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
Sobre o autor

Felipe Storch Damasceno é economista-chefe do IBEF-ES.





