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Diploma ainda abre portas ou é voo da Varig que não decola?
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Sandro Rizzato

Sandro Rizzato assina a coluna Arena Digital sobre tecnologia, inteligência artificial e empreendedorismo, escrita sem deslumbramento e sem discursos prontos, com a proposta de confrontar ideias, questionar o hype e analisar o impacto real da IA no trabalho, nos negócios e no comportamento humano. Com olhar crítico e provocativo, parte do princípio de que a tecnologia deve ampliar a capacidade humana, não substituí-la, e convida o leitor a sair do piloto automático digital para refletir sobre as transformações que influenciam decisões, produtividade, atenção e qualidade de vida.

Durante anos, prometeram embarque imediato. Portão aberto, destino definido, assento garantido. Bastava cumprir o ritual: estudar, se formar, pegar o diploma. O mercado estaria lá, esperando como uma aeronave pronta para decolar.

O problema é que ninguém avisou que o aeroporto mudou de lugar. Ou pior: que o voo foi cancelado enquanto ainda vendiam passagens. Ou ainda pior, a companhia aérea que faria o voo faliu e não existe mais.

O ensino superior continua operando como uma agência de viagens de um mundo que já não existe. Vende destinos previsíveis, carreiras lineares, estabilidade como ponto de chegada. Só que, do lado de fora, o mercado deixou de ser rota comercial e virou espaço aéreo turbulento, sem plano de voo fixo e com regras que mudam em tempo real.

Hoje, o diploma ainda chega. Emoldurado, até em couro, celebrado, financiado em anos de mensalidades. Mas o que não chega junto é o embarque. Não chega a vaga, não chega a função, não chega a previsibilidade. Em muitos casos, não chega nem a utilidade prática daquilo que foi aprendido.

Não é raro encontrar profissionais altamente qualificados dirigindo para a Uber, profissionais bacharéis operando entregas no iFood, engenheiros, advogados e administradores migrando para atividades completamente fora da sua formação. Não por escolha estratégica, mas por falta de encaixe. O mercado não absorve mais como antes. Ele seleciona de outra forma.

Enquanto isso, um outro tipo de embarque acontece, silencioso, descentralizado, sem diploma na mão. Jovens que sequer concluíram uma graduação estão criando produtos digitais, automatizando processos com inteligência artificial, lançando serviços enxutos e faturando cedo. Pequenos negócios operados com ferramentas como ChatGPT, Claude, Midjourney e Shopify permitem que uma única pessoa faça o trabalho que antes exigia uma equipe inteira.

Em paralelo, surgem alternativas quase simbólicas dessa virada. Profissionais formados, sem espaço no mercado tradicional, compram uma impressora 3D, aprendem modelagem por conta própria e começam a produzir, vender, criar renda. Abrem pequenos negócios para se manterem e também a família. Não esperam mais serem contratados. Simplesmente começam.

Perceba que a questão aqui não é desqualificar o diploma. Ele ainda tem valor. Ainda abre portas. Ainda é essencial em áreas específicas. O problema é outro. O diploma deixou de ser garantia e passou a ser apenas uma possibilidade. Uma entre várias.

O mercado, por sua vez, mudou a moeda. Antes, ele valorizava títulos. Hoje, ele valoriza entrega. Antes, premiava formação linear. Agora, recompensa adaptação, velocidade e capacidade de resolver problemas reais, muitas vezes com o apoio direto da inteligência artificial.

E aqui está o desalinhamento mais perigoso: universidades continuam formando para um voo que não existe mais. Currículos longos, pouco conectados com a prática, ciclos lentos de atualização. Enquanto isso, o mercado aprende em tempo real, testa em tempo real e descarta em tempo real.

A inteligência artificial não eliminou o valor do conhecimento. Ela eliminará o monopólio do conhecimento formal.

E talvez essa seja a virada mais incômoda de todas.

O jovem que passa quatro ou cinco anos se preparando para “entrar no mercado” pode estar competindo com alguém que, em poucos meses, aprendeu a usar ferramentas, validou uma ideia e já está operando um negócio. Não porque um é mais inteligente que o outro, mas porque um foi treinado para esperar… e o outro para executar.

No fim, a provocação não é sobre o fim das faculdades. É sobre o fim da promessa que elas vendiam. O diploma ainda pode abrir portas. Mas, cada vez mais, ele não decide quem entra.

E talvez o ponto mais incômodo não seja o avanço da inteligência artificial, nem a mudança do mercado, nem a ascensão de jovens que constroem negócios antes mesmo de terminarem a escola, mas talvez o verdadeiro problema seja outro: continuamos investindo tempo, dinheiro e expectativa em um modelo que já não entrega o que promete, e fingimos não perceber.

Porque é mais confortável acreditar que o sistema ainda funciona do que admitir que ele mudou sem pedir autorização. No fim, a pergunta não é se a faculdade perdeu valor. Ela ainda tem o seu lugar.

A pergunta é mais dura, mais silenciosa, quase desconcertante: quantos diplomas ainda serão emitidos antes de aceitarmos que eles deixaram de ser um passaporte… e passaram a ser apenas um bilhete para um voo que nunca mais decola?

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