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A guerra [contra o tempo] no Irã
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Desde a revolução islâmica iraniana em 1979 que derrubou o governo apoiado pelo Ocidente, os revolucionários desenvolveram uma série de medidas para se protegerem contra agressões internas e externas. Os engenheiros iranianos por décadas aprimoraram a capacidade de engenharia aeroespacial com equipamentos à época modernos herdados do governo anterior. Mas, foi com ajuda soviética e norte-coreana que os militares desenvolveram uma das principais cartas contra ameaças, seus mísseis balísticos. Eles se mostraram capazes, por exemplo, de conduzir um ataque (mal sucedido) a uma ilha americana chamada Diego Garcia a 4 mil quilômetros de distância, colocando em tese até mesmo Roma no raio de ação.

A outra cartada do regime foi bem menos complexa, eles criaram um drone suicida de baixo custo que se tornou referência mundial no setor, sendo copiado pela Rússia e pelo próprio EUA. Ele se destacou pela sua simplicidade de produção, longo alcance e estratégia de enxame (várias unidades simultâneas para um mesmo alvo), que desafia as defesas modernas. Aqui pesa a assimetria de custos, os mísseis usados para abater cada drone custam milhões e cada drone iraniano algumas dezenas de milhares de dólares.

Contudo, mesmo que esse poder ofensivo possa prejudicar aliados árabes dos estadunidenses caso suas plantas petrolíferas sejam atingidas, não é a capacidade militar iraniana de ataque que realmente preocupa os americanos. Dentre outros fatores, o que faz com que Trump queira encerrar esse conflito o mais breve possível é que ele foi eleito justamente sob a bandeira de não iniciar novas guerras no oriente médio. Ao contrário de medidas anteriores de bombardeios pontuais, atualmente existe um esforço de guerra contínuo na região, com bombardeios diários, a eliminação da marinha adversária e do próprio Líder Supremo. A guerra escalou de tal forma que o Irã interrompeu o importante estreito de Ormuz no golfo pérsico, região chave para o transporte de petróleo global, e nele concentra sua vantagem na negociação.

O país Persa colocou o mundo em tensão, pois, vários países dependem diretamente desses carregamentos de fertilizante, petróleo e derivados (diesel, combustível de aviação, gasolina etc). Não é só nos Estados Unidos que isso reflete no aumento de inflação (a gasolina chegou a subir quase 40% na América), mas no mundo inteiro. Gigantes industriais como Índia, Japão, Coreia do Sul são altamente dependentes da importação desse petróleo, e o comprometimento de sua produção pode afetar a oferta mundial se seus estoques se esvaírem.

Concluindo, mesmo que o Irã tenha se preparado com grandes estoques, eles não têm capacidade de reabastecimento de seu arsenal de mísseis e drones (suas fábricas foram bombardeadas), então quanto mais tempo passa, menor será o poder ofensivo. Além disso, permanecer com o estreito fechado é interromper a principal fonte de financiamento do próprio regime iraniano, sua exportação de petróleo. Já Trump quer o mais breve possível encerrar esse conflito e reverter a opinião pública negativa da alta dos preços, já que no final deste ano há eleições para o congresso (Midterm elections), que pode retirar sua governabilidade na Câmara e no Senado. O fantasma de uma guerra infrutífera multibilionária assola o imaginário estadunidense, como a guerra do Vietnã e mais recentemente o Afeganistão; além da própria pressão de aliados que temem um processo inflacionário em suas cadeias produtivas.


Sobre o autor

 

Foto: Divulgação

 

 

Mateus Rios é formado em Economia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Atua como assessor de investimentos na Valor Investimentos.

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