Não é incomum termos a necessidade de pedir ajuda do outro em alguma situação e, ainda assim, buscarmos resolver tudo aquilo que nos acomete de modo solitário e discreto. É como se a solicitação de ajuda fosse algo errado, perigoso ou atestado de fracasso e inconveniência. Neste caso, temos a sensação de que precisamos “dar conta” de tudo sem envolver mais ninguém em nossos problemas. No entanto, até que ponto isso pode ser saudável?
Demandar ajuda é algo controverso até quando somos capazes de verbalizar a necessidade do outro diante de alguma situação de sofrimento. Mesmo uma pessoa que busca ajuda com psicoterapia, com um psicólogo/psicanalista, pode apresentar todas as resistências e dificuldades possíveis para a continuação de seu próprio tratamento e cuidado de si.
É como se a pessoa estivesse em uma contradição entre a necessidade e o medo dessa ajuda. Neste caso, o senso comum pode ter pensamentos condenatórios sobre o sujeito: “ele não quer ajuda” ou, ainda, “essa pessoa gosta de sofrer”. Porém, pensar desse modo é uma espécie de preguiça do pensamento, pois existem muitos mais elementos envolvidos na dificuldade em se permitir receber ajuda.
Ou seja, mesmo uma pessoa que começa um tratamento psicológico, mas acaba por faltar aos atendimentos ou mesmo interrompe tudo sem aviso prévio, sente as dores de ter que passar pelo doloroso processo de cuidado de si. Não é tão simples enfrentar algumas dores para que elas sejam transformadas. Alguns monstros precisam ser enfrentados de frente para que percam sua força de assombração.
Para entendermos isso melhor, vamos olhar mais de perto esse fenômeno. Em primeiro lugar, quando temos alguma condição que se torna cada vez mais dolorosa, negamos essa situação. A negação é um modo de preservação do próprio eu (ego) para que não se perceba faltoso. Além disso, temos uma cultura em que pedir ajuda é visto socialmente como sinal de fraqueza e impotência. Diante disso, a pessoa não apenas evita pedir ajuda como tenta esconder suas demandas.
Mas, ainda quando pedimos ajuda, existe outro ponto importante que merece nossa atenção: a responsabilidade. Crescer dói, e ter que assumir responsabilidade dos cuidados de si é doloroso, mas isso não precisa ser um processo solitário e isolado.
Geralmente esperamos resultados rápidos, mas não podemos tentar simplesmente eliminar o problema (que pode ser um sintoma) sem antes conversar com o sentido que ele possui na vida da pessoa. Na psicanálise, o objetivo não é pura e simplesmente acabar com os sintomas como se fosse um tumor estranho a ser extraído do sujeito, mas entender como aquilo se tornou parte dele, para que o tratamento funcione sem que o sujeito abandone o cuidado de si precipitadamente.
Portanto, respeitar o sofrimento e o tempo do outro é essencial. Cada um pede ajuda no seu tempo, mas tem tantas promessas e ofertas na internet para resolver problemas complexos com soluções simples, prometendo curas de todo mal, que tentamos resolver tudo sem compartilhar a dor com o outro. Além do preconceito que ronda aqueles que precisam de ajuda, mas temem apresentar suas vulnerabilidades diante de um mundo que traduz tudo como fraqueza e “mimimi”.
Sendo assim, que possamos pedir ajuda sem esperar que a situação chegue a um limite extremo de sofrimento, sem que isso não viole nossa intimidade nem que aumente nossa vulnerabilidade. Seja com a rede de apoio, seja com profissionais que possuem o sigilo profissional e não vão te julgar pela necessidade de se cuidar e ser cuidado.





