Existe um momento na carreira em que o que te fez crescer começa, silenciosamente, a te limitar. Normalmente isso acontece depois de um período consistente de reconhecimento, quando você performa bem, entrega com qualidade, resolve problemas, vira referência naquele tipo de atuação e isso naturalmente abre novas oportunidades. O problema é que essas oportunidades, muitas vezes, pedem exatamente a mesma coisa que você já sabe fazer.
E aí começa um ciclo, você continua fazendo bem, continua sendo reconhecido, continua sendo chamado para fazer aquilo que já domina. E, sem perceber, entra em um loop de repetição altamente eficiente, porque é um lugar confortável, seguro e que você já sabe que funciona. Mas isso também pode te manter dentro de uma caixa em que você performa tão bem que ninguém quer te tirar dali. Nem o mercado, nem você. E isso não é necessariamente ruim.
Tem gente que não quer ir para uma posição de gestão, não quer liderar e nem quer assumir outro tipo de responsabilidade, quer continuar fazendo o que faz bem e isso pode ser uma escolha legítima. O ponto não é esse. O ponto é quando essa permanência deixa de ser sua escolha e passa a ser um padrão, porque aquilo que te trouxe até aqui foi construído em um determinado contexto, com determinadas exigências. E o próximo nível, quase sempre, exige outra coisa: menos execução, mais direção, menos controle, mais leitura de contexto.
E essa transição não é simples, principalmente porque ela exige abrir mão de algo que funciona e existe um apego natural ao que já deu certo. Temos uma tendência de repetir, de proteger e de manter o desempenho dentro de um território conhecido. Afinal, é ali que você tem domínio, previsibilidade e uma sensação maior de segurança, onde você é avaliado por algo que já domina e sair disso significaria entrar em um novo tipo de exposição, ser avaliado por outras habilidades e lidar com um tipo de incerteza diferente.
E nem sempre a vida permite esse movimento no tempo que você gostaria. Às vezes, o momento pessoal pede estabilidade. Às vezes, a rotina exige previsibilidade. Às vezes, a segurança fala mais alto. E tudo isso faz sentido, mas, ao mesmo tempo, existe uma pergunta que começa a aparecer: isso ainda está me desenvolvendo ou eu só fiquei muito bom no mesmo lugar?
Essa dúvida costuma vir acompanhada de outras sensações, como uma certa falta de desafio, um distanciamento de outras possibilidades e até um tipo de curiosidade, ou incômodo, com aquilo que você não viveu. Porque como sabemos, toda escolha também é uma renúncia, já que ao mesmo tempo em que você aprofunda uma habilidade, deixa de desenvolver outras. Ao mesmo tempo em que você constrói um tipo de trajetória, se afasta de outras experiências possíveis. E isso não é um problema, mas precisa ser uma decisão consciente.
Em algum momento, evoluir pode significar desaprender partes da sua própria identidade profissional, soltar o controle da execução, abrir mão de ser excelente no que já domina e se permitir ser iniciante em outras camadas da carreira. Isso não vem com uma promoção, mas com uma decisão. Por isso, talvez a questão não seja se você está indo bem, mas se aquilo que te fez chegar até aqui ainda sustenta o que você quer construir daqui pra frente. Porque crescer pode te levar longe, mas repetir o mesmo caminho pode te manter sempre no mesmo lugar, só que em uma versão mais sofisticada.
Pílula Dourada
O que te fez crescer pode não ser o que vai te levar adiante.





