IBEF Academy
A guerra contra os ricos: um discurso que ganha votos e perde o futuro
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O IBEF Academy é o programa de auto formação do IBEF-ES, com foco em gestão, economia, finanças e filosofia. Seu objetivo é contribuir para a evolução do ambiente de negócios no Espírito Santo, qualificando profissionais e fortalecendo o ecossistema econômico e financeiro do estado.
As economias não funcionam com slogans. Foto: Freepik
As economias não funcionam com slogans. Foto: Freepik

O discurso é sedutor: “os ricos precisam pagar a conta”. Funciona bem em palanques, manchetes e redes sociais. O problema é que as economias não funcionam com slogans — funcionam com liberdade e previsibilidade.

Apresentado como instrumento de justiça social, esse discurso cumpre um papel eleitoral evidente: cria um inimigo conveniente, mobiliza ressentimentos e oferece uma narrativa simples para problemas complexos. Ao transformar desigualdade em conflito moral, substitui-se o debate econômico por retórica política.

Nos últimos anos, a retórica contra os “ricos” deixou de ser apenas simbólica e passou a orientar decisões concretas de política econômica. O ano de 2025 foi marcado por uma sequência de aumentos tributários em diferentes frentes, culminando inclusive na chamada taxação dos super ricos. A partir de 2026, com a nova Lei 15.270, lucros e dividendos pagos por uma empresa a uma mesma pessoa física residente no Brasil que excedam R$ 50 mil mensais passam a ser tributados em até 10%.

A questão central, no entanto, não é apenas o tributo em si, mas os motivos por trás dessas decisões — e, sobretudo, as consequências que elas produzem.

A primeira fragilidade dessa política está na própria definição do seu alvo. Afinal, quem são os “super ricos”? Quem estabelece esse rótulo? Um indivíduo que recebe R$ 50 mil por mês é, necessariamente, um detentor de riqueza extraordinária ou pode ser apenas um profissional altamente qualificado, um empreendedor bem-sucedido ou alguém que assumiu riscos ao longo de uma vida produtiva?

O valor em si é irrelevante. Mesmo que se tratasse de R$1 milhão mensal, a pergunta permanece: deve alguém ser penalizado por conseguir organizar, inovar ou produzir em escala elevada? O problema não é o número, mas a subjetividade do critério. E mais: é razoável transferir a responsabilidade pelo desequilíbrio fiscal justamente àqueles que sustentam a maior parte da arrecadação?

Enquanto isso, o Brasil tem se mostrado um Estado profundamente gastador. Até dezembro de 2025, a administração pública federal ultrapassou 50 mil cargos comissionados, o maior número da história. Em apenas 2 anos (2023-2025), foram criados cerca de 4,4 mil novos postos de direção, chefia e assessoramento, segundo levantamento do Farol da Oposição com base em dados oficiais do Ministério da Gestão e da Inovação (MGI).

Paralelamente, cerca de 94 milhões de brasileiros utilizam algum tipo de programa social do governo, segundo números do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Trata-se de um cenário que evidencia uma estrutura social na qual cresce a dependência em relação ao Estado, levantando questionamentos sobre o equilíbrio entre produção econômica e assistência governamental.

Nesse sentido, a ampliação da estrutura estatal — tanto pelo aumento de cargos na administração pública quanto pela expansão de programas sociais — contribui para o crescimento dos gastos públicos, sendo possível observar a formação de uma máquina estatal cada vez mais ampla e onerosa, o que reforça a percepção de um Estado inchado.

Esses cargos e benefícios cumprem uma função política clara: fidelizar apoio, criar dependência e sustentar uma imagem de Estado paternalista. O que raramente se discute é o custo desse modelo. Para distribuir tanto, é preciso arrecadar ainda mais — e essa conta recai, inevitavelmente, sobre a própria sociedade por meio do aumento de impostos.

É nesse contexto que surgem novos tributos sobre investimentos, elevação de alíquotas e ampliação das bases tributáveis. Medidas defendidas como correção de desequilíbrios, mas que, na prática, elevam o custo de permanecer, investir e produzir no Brasil para quem atua na economia formal.

O aumento da carga tributária sobre altos rendimentos e patrimônios tem um efeito previsível: a migração de capitais e talentos para jurisdições mais competitivas. Países que adotam estratégias fiscais agressivas aprendem, frequentemente da pior forma, que capital é móvel e responde rapidamente.

A fuga de capitais não representa apenas perda direta de arrecadação. Ela implica também a perda de conhecimento, inovação tecnológica, empreendedorismo e cadeias produtivas mais sofisticadas. São esses agentes econômicos que, em geral, criam empresas, geram empregos qualificados e elevam a competitividade do país.

Como consequência, surgem efeitos em cascata: aumento de preços, redução da oferta de empregos e desaceleração do investimento produtivo. No fim do processo, quem menos tem mobilidade ou alternativas — a população mais pobre — é quem paga a conta.

Historicamente, a França seguiu caminho semelhante ao adotar taxações agressivas sobre grandes fortunas, mantendo por décadas o Impôt de Solidarité sur la Fortune (ISF), aplicado a patrimônios superiores a €1,3 milhão. No entanto, o tributo foi substituído em 2018 por um imposto restrito ao patrimônio imobiliário, pois entendeu-se que o resultado foi a fuga de contribuintes de alta renda e queda de investimentos.

Ao transformar a riqueza em inimiga pública e penalizar aqueles que fomentam o desenvolvimento econômico, o país arrisca comprometer seu próprio futuro.

Tributar excessivamente os chamados “super ricos” pode agradar no curto prazo, mas cobra um preço elevado no longo prazo: menos investimento, fuga de capital, redução de oportunidades e empobrecimento gradual da sociedade.

Uma economia que pune o sucesso dificilmente prospera. Em última instância, quando o Estado trata quem produz como adversário, o verdadeiro prejudicado é o próprio país.


*Diana Mantovani Zanotelli é formada em Direito na Faculdade de Direito de Vitória (FDV), Sócia Fundadora da Diluz – empresa especializada em registro de marcas e membro do IBEF Academy.

 

 

 

 

 


Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.

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