Existe um paralelo interessante entre empreender e jogar golfe. Para quem observa de fora, ambos parecem atividades relativamente simples. No golfe, muitos imaginam que basta bater na bola até que ela entre no buraco. No empreendedorismo, há quem acredite que tudo começa e termina com uma boa ideia, uma planilha bonita e uma palestra motivacional no LinkedIn. Quem já entrou em um campo de golfe ou já tentou construir uma empresa sabe que a realidade costuma ser bem menos romântica.
Uma partida de golfe tradicional tem 18 buracos. Cada um representa um desafio diferente: distância, obstáculos, vento, inclinação do terreno e estratégia. O jogador precisa atravessar todo o campo tomando decisões a cada tacada. Já no empreendedorismo, o campo não tem 18 buracos. Ele tem uma vida inteira. Não existe percurso claramente desenhado nem um ponto final onde alguém levanta uma plaquinha dizendo “parabéns, você venceu o capitalismo”.
No golfe, tudo começa no tee de saída, a primeira tacada. É o momento em que o jogador escolhe a direção e define sua estratégia inicial. No mundo empresarial, essa tacada é abrir a empresa, escolher o mercado, estruturar um produto ou serviço. É a hora em que o empreendedor olha para frente e imagina um fairway limpo. O problema é que, no Brasil, muitas vezes o fairway vem acompanhado de vento contra, rough burocrático e alguns bunkers fiscais cuidadosamente posicionados pelo Estado.
Empreender aqui é um pouco como jogar em um campo onde, além dos obstáculos naturais, alguém decidiu espalhar formulários, guias e interpretações tributárias pelo caminho.
Dentro do golfe existe também a regra do handicap, um sistema criado para equilibrar jogadores com níveis diferentes de experiência. Em termos simples, o handicap permite que um jogador menos experiente tenha algumas tacadas a mais para compensar a diferença técnica em relação a um jogador mais experiente.
No mundo dos negócios a lógica é parecida, mas sem qualquer mecanismo de compensação. O empreendedor jovem entra no campo cheio de energia, coragem e confiança. Muitas vezes tenta atacar todos os greens como se estivesse em um campeonato imaginário contra o próprio ego. Já o empresário experiente aprende algo que não aparece em livros de gestão: ler o campo antes de bater na bola.
Ele sabe que algumas oportunidades são apenas armadilhas bem disfarçadas. Reconhece o bunker antes de cair nele. E, principalmente, entende uma das decisões mais importantes do golfe: atacar o green ou fazer um lay-up.
Atacar o green significa buscar o resultado direto, arriscar uma tacada longa para resolver o buraco rapidamente. No empreendedorismo isso se traduz em expansão acelerada, novos investimentos, crescimento agressivo. Às vezes é exatamente o que precisa ser feito.
Mas existe também o lay-up, a jogada estratégica. O jogador deliberadamente não tenta chegar ao green. Prefere posicionar a bola em um ponto seguro para preparar a próxima tacada. Muitos empresários experientes fazem isso o tempo todo. Consolidam caixa, reorganizam operação, reduzem risco. Nem toda oportunidade merece um swing heroico.
E então chegamos ao momento mais simbólico do golfe: o putt. Antes de bater na bola, o jogador observa o green, analisa a inclinação, caminha ao redor, tenta entender o comportamento do terreno. Pequenos detalhes mudam completamente o resultado.
No empreendedorismo essa leitura é o que separa decisão de impulso. É perceber timing de mercado, comportamento do consumidor, mudanças econômicas e regulatórias. No Brasil, aliás, o green às vezes muda de inclinação no meio da jogada, porque alguma regra tributária foi reinterpretada enquanto você ainda estava calculando a tacada.
Mesmo assim, empreender continua sendo um jogo fascinante. No golfe, o objetivo é terminar os 18 buracos com o menor número de tacadas possível. No empreendedorismo não existe buraco final, nem troféu definitivo.
Existe apenas o próximo desafio. A próxima folha de pagamento, despesas do próximo mês, assinatura de um novo contrato, ou até mesmo, rascunho de pedido de recuperação Judicial ou de Falência.
Talvez por isso o empreendedor seja, no fundo, alguém que aceita entrar todos os dias em um campo cheio de obstáculos, vento contra e regras que mudam no meio da partida… sabendo que o jogo não dura uma rodada.
Ele dura uma vida inteira.
E para quem nunca teve contato com o esporte, fica um convite. No Espírito Santo existe o Clube Capixaba de Golfe (CCG), onde iniciantes e jogadores experientes dividem o mesmo campo e descobrem rapidamente que o golfe não é um esporte de força, mas de estratégia, paciência e leitura do terreno.
No fundo, exatamente como empreender.
E talvez, entre um swing e outro, você perceba algo curioso: entender um campo de golfe pode ensinar mais sobre negócios do que muitos cursos de empreendedorismo vendidos na internet.





