Agro & Coop
Mulheres se destacam no comando de cooperativas capixabas
Foto de Vinícius Baptista

Vinícius Baptista

Vinícius Baptista é jornalista, especialista em Gestão de Pessoas e Marketing Político, e apaixonado por contar histórias. Ao longo dos anos, tem rodado o Estado para mostrar como que o agro e o cooperativismo tem transformado a vida das pessoas.

Maio de 2025. Chovia muito na região serrana do Espírito Santo naquela tarde. Depois de alguns minutos parados na estrada devido uma árvore que havia caído no caminho, chegamos a um grande galpão na cidade de Santa Leopoldina. Ali, agricultores se empenhavam para colocar caixas de um rizoma muito usado como tempero e planta medicinal dentro de um enorme contêiner. O gengibre produzido na região das “Três Santas” capixabas se preparava para atravessar o Atlântico com destino ao exigente mercado gastronômico francês. À frente daquela cooperativa, uma jovem mulher conduzia todo o trabalho. Era Leonarda Plaster, presidente da Cooperativa dos Produtores de Gengibre da Região Serrana do Espírito Santo, a Coopginger.

Bacharel em Direito, Leonarda decidiu deixar a Grande Vitória para voltar para a terra da família e produzir gengibre. Diante da dificuldade do mercado, se uniu a outros 33 pequenos produtores e, em 2021, fundou a cooperativa. Hoje, são 204 cooperados. Com firmeza, mas sem perder a ternura jamais, Leonarda fecha negócios com clientes, trata com fornecedores e atende as demandas dos cooperados.

Leonarda Plaster, presidente da Coopginger. Foto: Divulgação

“Existe sim o preconceito de algumas pessoas. Mas, infelizmente, isso é do ser humano. Mas acredito que existe um equilíbrio entre esse preconceito de alguns e a relação de carinho, respeito e compromisso que a gente recebe de outras pessoas exatamente por eu ser mulher. O preconceito sempre vai existir, independente de homem ou mulher. Isso é do caráter de cada um. Mas, na maior parte do tempo, eu sou bem tratada e respeitada por todos”, destacou a presidente.

Mas, muitas vezes, os olhares atravessados surgem no primeiro contato com alguns homens quando percebem que estão negociando com uma mulher. “No início, eu já senti alguns clientes me olhando diferente, como se o fato de eu ser mulher fizesse com que eu não entendesse do assunto. Principalmente com os gringos. Mas, depois, quando eles olham o nosso trabalho, eles nos enxergam de forma diferente e ficam impressionados. Essa é a melhor parte: surpreender”, destacou essa mulher forte do agro capixaba.

“Quando é para falar, eu falo mesmo. Sou muito sincera e, em certas situações, eu preciso me impor. Pela responsabilidade que eu tenho hoje, eu preciso ser firme e tomar decisões firmes e brigar, se for preciso, para que o melhor seja sempre feito e que obrigações sejam cumpridas”, pontuou a presidente.

Na semana em que o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, podemos ver que, assim como Leonarda, outras mulheres estão à frente do cooperativismo capixaba. Ali, na cidade vizinha, em Santa Maria de Jetibá, uma outra mulher impressiona com o seu conhecimento sobre ervas medicinais e temperos. Em seu sítio, Selene Tesch conhece cada planta de cada palmo de terra da propriedade. “Quem não conhece pode achar que isso aqui é mato. Mas temos todos os tipos de temperos e plantas para diversos problemas de saúde. Todas têm uma utilidade. Aqui temos uma farmácia viva”, diz a agricultora com um característico sotaque pomerano, típico de muitos moradores da região.

Selene Tesch, presidente da CAF Serrana. Foto: Divulgação

Selene divide o tempo entre as atividades do seu sítio e a presidência da Cooperativa de Agricultura Familiar (CAF) Serrana, que reúne mais de 200 famílias de Santa Maria, Santa Leopoldina, Itarana, Domingos Martins, Afonso Cláudio, Laranja da Terra, Itaguaçu e Santa Teresa. A CAF Serrana comercializa aproximadamente 60 toneladas por mês. Selene fundou a cooperativa há quase 20 anos, e nesse tempo já viu a vida de muitos pequenos agricultores serem transformadas graças ao trabalho em equipe liberado por ela.

Chegando na Região Metropolitana, um grupo de mulheres dá os primeiros passos no cooperativismo. São artesãs, psicólogas, pedagogas, terapeutas que se uniram e formaram a Manualidadeterapia Artesanato e Saúde Mental, a cooperativa mais jovem do Espírito Santo. Sob o comando da presidente Henriqueta Correa e da diretora administrativa Rute Santos, o grupo, formado majoritariamente por mulheres, se reuniu com o objetivo de cuidar primeiro da própria saúde mental por meio de trabalhos manuais. Agora, a coop leva essa proposta para empresas e suas cooperadas seguem ajudando várias mulheres. “Estamos com um grupo de mulheres ‘60 +’ e a recepção delas tem sido incrível. Somos mulheres que cuidam de outras mulheres”, destacou Henriqueta.

Mulheres da Manualidadeterapia. Foto: Divulgação

Se, no ano passado, o cooperativismo capixaba movimentou R$ 16, 9 bilhões e transformou a vida de milhares de capixabas, muito desse sucesso se deve ao trabalho incansável de mulheres que estão em função de comando ou exercendo um papel de protagonismo em suas cooperativas. Vale destacar o lindo trabalho feito pelas produtoras de café da Cafesul, em Muqui, com o famoso “Pó de Mulheres”; uma marca própria criada por cooperadas que produzem um café especial em suas propriedades. É inegável que a qualidade do café produzido no Sul do Espírito Santo passa pelas mãos cuidadosas – e extremamente exigentes – daquelas mulheres que têm acumulado premiações por todo o país.

“Nos últimos anos, avançamos muito na presença feminina no cooperativismo capixaba. Temos aumentado a participação no número de colaboradoras, cooperadas e em cargos de gestão e liderança. Isso representa um avanço para o nosso modelo de negócio, que vem contribuindo para dar mais protagonismo e oportunidade para as mulheres, no campo e na cidade. Mas ainda temos um desafio: seguir ampliando esse espaço. Ainda há ‘gaps’ que precisam ser combatidos para que elas possam ocupar mais posições estratégicas dentro das cooperativas”, destacou o diretor executivo do Sistema OCB/ES, Carlos André Santos de Oliveira.

E que elas sigam como protagonistas no cooperativismo capixaba e onde mais elas quiserem.

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