Além do Divã
Dia dos Namorados: celebração ou armadilha do amor?
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Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.
Casais apaixonados celebram o Dia dos Namorados, entre gestos de afeto e as expectativas que cercam a data
Casais apaixonados celebram o Dia dos Namorados, entre gestos de afeto e as expectativas que cercam a data. Foto: Pixabay
O Dia dos Namorados acontece todos os anos em 12 de junho, mas não é unanimidade que essa data seja sempre alegre e comemorativa. Em geral, esse dia pode fortalecer a celebração da união entre pessoas com vínculo afetivo, levando os apaixonados a todo tipo de declaração de amor. É comum que o comércio e os restaurantes fiquem movimentados nessa época, com serviços voltados aos casais que querem renovar seus votos e esquentar os corações. Talvez seja justamente essa movimentação tão intensa e evidente nas redes sociais que cause ansiedade e desconforto em algumas pessoas — tanto nos solteiros quanto nos comprometidos. E não se trata de inveja, mas de uma dificuldade em assumir algo diferente do que se espera. Para os solteiros, é compreensível que um dia dedicado à celebração do namoro provoque tristeza naqueles que desejam encontrar alguém especial. Alguns sentem a pressão de estarem com alguém e se entristecem pela suposta falta de sua “metade” — embora outros celebrem o alívio de terem encerrado um relacionamento doloroso. No entanto, estar solteiro não significa solidão, como se isso fosse um fracasso ou um defeito de fábrica. É possível viver a solitude sem se render completamente aos ideais, tornando-se exigente com o outro e evitando relacionamentos apenas por status. Talvez os solteiros estejam, na verdade, em um relacionamento sério com a própria solitude — o que é importante para prevenir abusos e dependência emocional. Estar solteiro não é uma fase, mas um modo de vida. Caso alguém decida compartilhar a vida com outra pessoa, a solitude pode contribuir para que isso aconteça de maneira mais saudável. E, nesse sentido, o Dia dos Namorados pode representar também um risco para os relacionamentos — e, para falar disso, é preciso compreender o amor como algo potente e criativo, para que esse risco faça sentido. No amor, cada pessoa constrói um vínculo único com o outro — nem sempre possível de entender. Pode haver algo singular no encontro entre duas pessoas, fora dos clichês e tradições, que frequentemente oferecem um modelo ideal de namoro. E aí reside um problema: tradicionalmente, associa-se ao Dia dos Namorados apenas um tipo ideal de casal, insuportavelmente feliz. Os namorados acabam pressionados a consumir produtos, trocando o valor das coisas pelo preço delas. O gesto carinhoso dá lugar ao presente caro. As declarações de amor e as celebrações viram obrigações. Muitos só lembram de fazer algo “especial” nessa data, esquecendo de cultivar a alegria cotidiana de estar junto. Esses ideais invadem os relacionamentos com pressões externas — da família, do comércio, das instituições e das redes sociais. O casal pode sucumbir à caricatura do “casal ideal” e ceder às expectativas alheias. E aí está o perigo: esse pode ser justamente o começo do fim. Portanto, o Dia dos Namorados, ao mesmo tempo em que pode reacender o calor do amor, também pode entristecer quem ama fora do padrão, distante dos ideais sociais, do consumo e dos estereótipos. Pode, inclusive, reforçar aparências e alimentar a “ostentação afetiva”, inibindo formas criativas de viver o amor. Amores “proibidos” ou pertencentes a minorias são muitas vezes constrangidos nessa lógica, e nem sempre têm seus direitos garantidos — nem mesmo o direito de amar e ser amado. Que possamos respeitar todas as formas de amor e lutar para vivê-lo ao nosso modo — sem abrir mão do que desejamos e do que, de fato, nos faz sentir vivos. LEIA MAIS:

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