Reportagem por Esther Laurentino e Isabelle Vasconcelos
O que acontece com as roupas que deixamos para trás? Uma calça jeans esquecida no fundo do armário. Uma camisa que já não combina mais com o estilo de quem a comprou. Um vestido guardado há anos, usado poucas vezes e deixado para depois. Para muita gente, o destino parece previsível: descarte. Mas nem toda roupa termina quando deixa de ser usada.
No Espírito Santo, mulheres empreendedoras vêm transformando peças esquecidas em algo completamente novo. Um jeans gasto vira bolsa. Uma camisa reaparece com outros cortes. Um vestido antigo ganha nova modelagem, outra cor e outra história. A transformação tem nome: upcycling, prática baseada no reaproveitamento criativo de roupas e tecidos sem destruir completamente o material original.
Mais do que reutilizar, a proposta é reinventar, prolongando a vida útil daquilo que parecia não ter mais espaço. A discussão ganha força diante de um cenário preocupante. O Brasil produz cerca de 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano, mas apenas 20% desse volume é reciclado ou reaproveitado, segundo dados do Sebrae e do relatório Fios da Moda 2023. O restante segue para descarte, muitas vezes de forma inadequada.
Em um setor marcado pela velocidade e pelo excesso, reaproveitar deixou de ser apenas uma escolha estética. Tornou-se estratégia. Empresas e pequenos empreendedores vêm buscando caminhos ligados à economia circular, modelo que propõe uma solução ao reduzir desperdícios e manter materiais em uso pelo maior tempo possível.
No Espírito Santo, parte dessa transformação vem sendo costurada por mulheres que encontraram no upcycling uma forma de empreender, construir identidade e transformar criatividade em renda. Foi assim que nasceu a Mira.
Moda, identidade e rceomeço

A história da Mira começou longe das passarelas e dos grandes centros da moda. Em uma conversa despretensiosa entre amigas, trocando ideias sobre figurino, arte e estilo, nasceu a vontade de criar algo próprio. O que parecia apenas afinidade criativa ganhou outra dimensão: transformar roupas esquecidas em peças autorais e fazer disso um negócio sustentável.
A marca foi criada por Daniela Santos Neves, Sofia Viana Ferracioli e Gabriella Vasconcelos, três mulheres com trajetórias diferentes, mas conectadas pela criatividade. Daniela atua como jornalista, diretora de arte e figurinista. Sofia trabalha como stylist, costureira e possui formação em Produção de Moda. Já Gabriella transita entre arte e design gráfico

Na Mira, quase nada nasce do zero. Grande parte das peças começa em brechós da Grande Vitória, roupas esquecidas no guarda-roupa ou doações de amigos e familiares. Antes da costura, existe um exercício de imaginação: olhar para uma peça aparentemente comum e pensar no que ela ainda pode se tornar.
Um vestido parado ganha novos recortes. Uma camisa larga reaparece reinventada. Um jeans antigo encontra outro propósito. Em vez da repetição comum à indústria da moda, a marca aposta justamente no contrário: roupas únicas, criadas a partir do improviso e da experimentação
Todas as peças são únicas. Nunca vai existir uma exatamente igual à outra, porque estamos sempre adaptando os materiais e criando algo novo

A exclusividade acabou atraindo um público interessado não apenas em roupa, mas em identidade. As “Divas” — como as sócias chamam carinhosamente suas clientes — são, em sua maioria, mulheres e pessoas LGBTQIA+. Esse público busca peças que vão além da moda, valorizando roupas capazes de expressar identidade, personalidade e fortalecer a autoestima.
Mas transformar criatividade em negócio ainda significa enfrentar barreiras. Segundo as sócias, um dos maiores desafios está no preconceito com roupas reaproveitadas. Muitas pessoas ainda associam peças de segunda mão a algo inferior, sem considerar o trabalho manual e o processo criativo envolvidos. “Muita gente não entende o valor do processo criativo e do trabalho manual que existe por trás do upcycling. Às vezes, a pessoa prefere pagar caro em uma peça produzida em massa do que investir em algo autoral”, contou.
Mesmo diante das dificuldades, a marca consolidou um público fiel. Para Daniela, a proposta nunca foi apenas vender roupas. Existe também um convite à reflexão sobre a forma como consumimos moda. Se para algumas pessoas roupas antigas representam descarte, para as criadoras da Mira elas ainda carregam outra possibilidade: a de recomeçar. “O mundo não precisa de mais roupas sendo produzidas do zero. Já existe muita coisa pronta que pode ser reaproveitada e reinventada”, afirma.
Quando o descarte vira estilo
Foi também a partir dessa lógica que nasceu a CriaUpcycling, marca criada pela figurinista, costureira e produtora de moda Joelma Silva. Desde 2020, ela transforma roupas usadas, jeans reaproveitados e tecidos esquecidos em peças urbanas e autorais, construídas a partir da experimentação e da estética streetwear.

A ideia surgiu do desejo de produzir uma moda menos descartável e mais conectada à identidade de quem veste. Em vez de partir de tecidos novos e coleções padronizadas, Joelma decidiu trabalhar justamente com aquilo que já existia. Jeans antigos, roupas usadas, sobras têxteis e tecidos garimpados passaram a ocupar um novo lugar: o de matéria-prima.
Na prática, o processo criativo raramente começa com uma ideia pronta. Muitas vezes, é o próprio tecido que conduz o caminho da peça. Um jeans desgastado pode sugerir novos cortes, enquanto retalhos esquecidos acabam definindo detalhes inesperados. Na Cria, primeiro vem o material. Depois, nasce a criação.
O resultado são roupas únicas, marcadas por referências urbanas e modelagens autorais. O reaproveitamento deixa de ser limitação e passa a orientar a identidade da marca, criando peças que dificilmente podem ser reproduzidas exatamente da mesma forma.

As vendas acontecem principalmente pelas redes sociais, por meio de encomendas, drops exclusivos e projetos culturais. O crescimento aconteceu de forma orgânica, impulsionado pela internet e pela identificação de consumidores interessados em roupas menos padronizadas e autênticas.
Mas manter uma produção independente e sustentável ainda significa lidar com desafios. Em um mercado marcado pela rapidez da moda produzida em massa, Joelma também enfrenta resistência de parte do público, que ainda associa roupas reaproveitadas a algo de menor valor.
A proposta da Cria segue justamente no caminho contrário: mostrar que reutilizar não significa repetir, mas criar algo completamente diferente a partir do que parecia ter chegado ao fim.
Eu percebo que ainda existe preconceito com peças reutilizadas, mas a marca busca mostrar o valor criativo e artístico do upcycling
Transformar também é resistir
A trajetória da artista e empreendedora Karol Abouts também nasceu da ideia de transformar o que já existia em algo novo. Antes mesmo de enxergar o upcycling como um modelo de negócio, ela encontrou na criação manual uma forma de lidar com sentimentos difíceis.
A marca surgiu entre 2016 e 2017, em um período em que Karol buscava na arte uma ferramenta para enfrentar a ansiedade e a tristeza. Ao mesmo tempo, ela acompanhava pela internet o crescimento de conteúdos ligados à customização de roupas, pintura em tecidos e reaproveitamento criativo.

Eu utilizava muito a internet naquela época, e temas como upcycling, pintura em roupas e customização estavam super em alta nos blogs, no Tumblr e no Facebook
Desde então, a artista passou a transformar peças encontradas em bazares e lojas de segunda mão em criações autorais. O processo criativo não segue fórmulas rígidas. Pelo contrário: nasce da observação, da experimentação e das referências que encontra no cotidiano. “Me inspiro em tudo. Em todas as coisas bonitas do mundo”, destaca Karol.
As vendas acontecem principalmente pela internet e em feiras presenciais, espaços que ajudaram a aproximar a marca de um público interessado em peças exclusivas e produzidas em pequena escala. O crescimento, segundo Karol, foi impulsionado principalmente pelas redes sociais, que ampliaram a visibilidade do seu trabalho ao longo dos últimos anos. Mas construir uma marca independente continua sendo um desafio.
“Não é fácil construir uma marca com pouca grana. Os desafios financeiros sempre existiram, mas eu sempre dou um jeito de alimentar meu sonho”, afirma.

Assim como outras empreendedoras do setor, ela também percebe que ainda existe resistência em relação às roupas de segunda mão. No entanto, acredita que esse cenário vem mudando à medida que mais pessoas passam a refletir sobre os impactos ambientais do consumo acelerado.
Pelo fato de serem peças de segunda mão existe sim um preconceito, mas hoje, através das movimentações e dos projetos, as pessoas têm olhado para isso de outra maneira, pensando também em causar menos impacto ao planeta
Histórias como a de Karol mostram que o upcycling não surge apenas como alternativa ao desperdício têxtil. Para muitas mulheres, ele também se transforma em ferramenta de expressão, autonomia financeira e construção de identidade.
Quem compra o diferente?
Durante muito tempo, roupas de segunda mão foram associadas à falta de opção ou improviso. Hoje, esse olhar começa a mudar. Principalmente entre consumidores mais jovens, peças reaproveitadas passaram a representar estilo, exclusividade e até posicionamento sobre a forma de consumir.
A estudante de Design de Moda e consumidora de brechós Ashley Garcia acompanha essa mudança de perto. Para ela, o interesse pelo upcycling vai além da economia: envolve identidade e a possibilidade de ressignificar roupas que talvez não fossem mais usadas.
Algumas pessoas consomem bastante porque tem um valor mais acessível, mas também porque é uma maneira de ressignificar roupas que talvez não fossem mais usadas
Esse movimento aparece também nos números. Segundo o Relatório de Revenda 2025 da ThredUp, cerca de 51% da Geração Z já comprou roupas de segunda mão, indicando uma mudança gradual no comportamento de consumo. Em um cenário dominado pela repetição da fast fashion, o que é único volta a ganhar valor.

O avanço do upcycling também já começou a aparecer fora das redes sociais. Em Vila Velha, diferentes edições do Rolê da Calçada ajudaram a reunir brechós, marcas independentes, empreendedores de upcycling e artistas locais, aproximando pequenos negócios de consumidores interessados em uma moda mais autoral.
Mais do que um evento, o Rolê se consolidou como reflexo de uma mudança de comportamento. Entre araras montadas em espaços públicos, peças garimpadas e marcas independentes, ajudou a mostrar que existe público — e procura — para uma moda construída a partir do reaproveitamento e da identidade local.
No Espírito Santo, empreendedoras como as da Mira e da Cria acompanham essa transformação de perto. Clientes chegam em busca de algo difícil de encontrar nas vitrines tradicionais: peças únicas, produzidas em pequena escala e carregadas de personalidade.
Quanto vale uma ideia?
Por trás de uma peça reaproveitada existe algo que nem sempre aparece à primeira vista. Antes da roupa pronta, vêm os testes, os recortes refeitos, o tempo de observação e as decisões criativas que transformam algo aparentemente comum em uma peça completamente diferente.
Essa dimensão levanta uma pergunta frequente entre quem trabalha com upcycling: como precificar algo que não é apenas produto, mas também processo criativo? Em um mercado acostumado à produção em massa e aos preços baixos, explicar o valor de uma peça única se torna parte do próprio trabalho das empreendedoras.
Para o economista Everlam Elias Montibeler, esse movimento está diretamente ligado à chamada economia criativa, setor em que design, arte e inovação se tornam ferramentas de geração de renda e valor econômico.
“Tudo aquilo que agrega valor por meio da criatividade impacta diretamente a economia. O design, a arte e a inovação transformam produtos comuns em algo único”, explica.
Um dos principais desafios ainda está na mensuração desse valor criativo. “É muito difícil medir financeiramente um processo criativo. Quanto vale uma ideia? Quanto vale um design novo que transforma completamente um produto? Existe uma subjetividade nisso, mas também um impacto econômico muito relevante”, afirma Montibeler.
Enquanto grandes marcas seguem a lógica da produção acelerada, pequenos empreendedores caminham em outra direção, apostando em peças únicas e em uma relação mais próxima com o consumidor. E é justamente nessa diferença que muitos desses negócios encontram espaço para crescer.
O futuro da moda em transformação
O futuro da moda ainda parece dividido entre velocidade e permanência. De um lado, tendências lançadas em ciclos cada vez mais rápidos. Do outro, iniciativas que tentam desacelerar esse ritmo e propor uma relação mais duradoura com as roupas.
Para a estudante de Design de Moda Maria Clara Xavier, a sustentabilidade deixou de ocupar um espaço secundário e passou a fazer parte das discussões centrais sobre o futuro do setor.
O futuro da moda é meio incerto porque ela muda muito rápido, mas hoje existe uma preocupação maior com sustentabilidade e durabilidade. É um debate muito presente dentro da faculdade
A mudança acompanha uma transformação mais ampla no comportamento de consumo. Em vez de apenas acompanhar tendências, parte dos consumidores passou a questionar a origem das peças, o impacto ambiental da produção e a durabilidade do que compra.

Nesse contexto, a economia circular ganha força como alternativa ao modelo tradicional da indústria. A ideia de manter produtos em uso pelo maior tempo possível começa a influenciar desde pequenos empreendedores até grandes marcas do setor têxtil.
No Espírito Santo, iniciativas como a Mira e a CriaUpcycling mostram que a moda pode ser construída a partir daquilo que já existe. Entre costuras, recortes e reinvenções, roupas descartadas ganham novas formas, conectando criatividade, renda e identidade.
No fim, o upcycling ultrapassa a ideia de tendência. Ele se torna uma nova forma de olhar para o consumo, para o trabalho e para aquilo que costumávamos chamar de descarte. Em um cenário marcado pelo excesso, reaproveitar deixou de ser apenas alternativa. Para muitos, já se tornou escolha.


