Aos 85 anos, Roberto Carlos volta a Cachoeiro de Itapemirim neste domingo (19) para um reencontro direto com o público que acompanha sua trajetória há décadas. Ídolo de diferentes gerações, ele mantém no palco rituais que viraram marca, como a tradicional distribuição de rosas ao fim das apresentações.
Filho ilustre da cidade, Roberto saiu do interior do Espírito Santo para se tornar um dos maiores nomes da música brasileira. A trajetória, no entanto, não foi linear. Entre dificuldades, episódios marcantes e recomeços, o artista construiu uma carreira que atravessa gerações e segue em movimento. Ao longo dos anos, também passou a conviver com histórias que se espalharam sobre seus hábitos. Ele já desmentiu, por exemplo, que não tire os carros da garagem de ré ou que precise limpar telefones constantemente, e afirma que não se incomoda com gatos pretos.
O acidente que marcou a infância
Um dos capítulos mais decisivos da vida do cantor aconteceu ainda na infância, em 29 de junho de 1947, durante a festa de São Pedro, em Cachoeiro. Roberto, então com seis anos e conhecido como Zunga, estava próximo à linha do trem quando uma locomotiva a vapor se aproximou.
Uma professora tentou alertar as crianças, mas o susto fez com que ele se desequilibrasse e caísse. A roda do trem passou sobre sua perna direita. O resgate mobilizou quem estava no local. Enquanto alguns tentavam levantar a locomotiva, um jovem improvisou um torniquete com o próprio paletó e levou o menino ao hospital.
Segundo relatos reunidos pelo biógrafo Paulo Cesar de Araújo, o médico que o atendeu, Romildo Gonçalves, optou por uma técnica menos comum na época e realizou a amputação abaixo do joelho, o que permitiu preservar a articulação. Mesmo diante da gravidade, o menino não demonstrava dor e chegou a dizer ao médico que tivesse cuidado para não sujar seu sapato novo.
A experiência atravessou sua obra. Em “O Divã”, ele relembra “o sangue no linho branco”, referência ao paletó usado no socorro. Já em “Traumas”, revisita as memórias do hospital e da infância. Roberto só passaria a usar prótese aos 14 anos. Até lá, andava de muletas.
22 CURIOSIDADES SOBRE O REI
1 – O apelido de infância
Antes de ser conhecido em todo o país, Roberto Carlos era chamado de Zunga. O nome surgiu ainda na infância, em Cachoeiro, e ficou restrito ao convívio familiar e aos amigos mais próximos. Com o tempo, o apelido foi sendo deixado para trás à medida que a carreira ganhava projeção nacional.
2 – A infância em Cachoeiro
Roberto Carlos nasceu e cresceu em Cachoeiro de Itapemirim, onde viveu alguns dos episódios mais marcantes da sua vida. Foi na cidade que sofreu o acidente aos seis anos, durante a festa de São Pedro, e também onde deu os primeiros passos na música, ainda criança, em programas de rádio.
A ligação com Cachoeiro nunca se rompeu e aparece tanto nas memórias pessoais quanto na própria obra, que revisita momentos da infância vividos ali.
3 – A família
Filho do relojoeiro Robertino Braga e da costureira Laura Braga, cresceu ao lado dos irmãos em Cachoeiro. Também homenageou o pai na música “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo”.
4 – Os filhos e perdas
Teve três casamentos ao longo da vida. Do primeiro, com Nice, nasceram Ana Paula, Roberto Carlos, conhecido como Dudu Braga, e Luciana. Anos depois, na década de 1990, reconheceu a paternidade de Rafael, fruto de um relacionamento na juventude com a modelo Maria Lucila Torres.
Em setembro de 2021, Dudu Braga morreu de câncer, aos 52 anos. O cantor atendeu a um pedido do filho e contou que ele “gostaria de ir embora com uma camisa do Corinthians, uma roupa confortável e tênis”, desejo que foi respeitado pela família.
5 – Os primeiros passos na música
Aos nove anos, Roberto Carlos já cantava ao vivo na Rádio Cachoeiro, em sua cidade natal. As apresentações ainda eram simples, mas marcavam o início de uma relação com o público que se manteria por décadas.
Foi ali que ele deixou de ser apenas o menino Zunga para dar os primeiros passos como cantor, em um ambiente que ajudou a moldar sua presença de palco.
6 – A fase difícil no início
No fim dos anos 1950, já no Rio de Janeiro, Roberto Carlos tentou se firmar na bossa nova e chegou a gravar um disco nesse estilo, que teve pouca repercussão. Na época, ele ainda buscava espaço e enfrentava resistência de um meio que não o via como parte daquele movimento.
A falta de reconhecimento levou a críticas e até ao rótulo de “João Gilberto dos pobres”, o que evidenciava a dificuldade de se encaixar naquele cenário e antecipava a virada que viria depois.
7 – A demissão como crooner
No fim dos anos 1950, já no Rio de Janeiro, Roberto Carlos foi demitido do trabalho como crooner na boate Plaza, em Copacabana, onde havia se apresentado por cerca de nove meses. A dispensa aconteceu na madrugada de uma segunda-feira e marcou um período de incerteza na carreira.
Sem reconhecimento e ainda tentando encontrar seu espaço, ele vivia uma fase instável, antes da virada que viria poucos anos depois.
8 – A confusão na televisão
Antes da fama, Roberto Carlos participou do quadro “Adivinha quem é o cantor mascarado?”, na TV Tupi, apresentado por Chacrinha. Ele apareceu com o rosto coberto, e o público apostava que a voz era de João Gilberto.
Quando a identidade foi revelada, a reação foi de surpresa e até decepção, já que ainda era um nome desconhecido. O episódio mostra o quanto ele ainda buscava espaço no início da carreira.
9 – O título de “Rei”
O título de “Rei” foi atribuído a Roberto Carlos por Chacrinha em 1965, quando ele já despontava como um dos principais nomes da música popular. A partir daí, o apelido passou a acompanhá-lo de forma definitiva.
Com o avanço da carreira, o nome se consolidou junto ao público e virou uma identificação direta com o artista ao longo das décadas.
10 – A virada com a Jovem Guarda
A consolidação de Roberto Carlos aconteceu nos anos 1960, quando ele passou a ser associado à Jovem Guarda e ganhou projeção nacional. Em 1965, no auge desse movimento, foi coroado “Rei da Juventude” por Chacrinha.
Esse período marcou a virada na carreira, tirando o cantor da fase de incertezas e colocando seu nome entre os mais populares do país.
11 – Canções autobiográficas
Roberto Carlos levou episódios pessoais para as canções, especialmente o acidente na infância. Em “O Divã”, ele relembra “o sangue no linho branco”, referência ao socorro após o atropelamento pelo trem.
Já em “Traumas”, retoma as memórias do hospital e do período em que ainda era criança, lidando com a recuperação. As duas músicas são exemplos diretos de como transformou experiências reais em parte do repertório.
12 – A música que virou homenagem eterna à mãe
Roberto Carlos transformou a relação com a mãe, Laura Braga, na canção “Lady Laura”, lançada em 1978 em parceria com Erasmo Carlos. A música nasceu como uma homenagem direta a ela e relembra momentos da infância e da convivência entre os dois.
Com o tempo, a canção ganhou outro peso na vida do artista. Após a morte da mãe, em 2010, ele passou a dizer que já não canta com a mesma alegria, mas que o amor só aumenta. Em uma apresentação, afirmou que hoje interpreta a música “sem alegria alguma, mas o amor é cada vez maior”.
Além do significado pessoal, “Lady Laura” se tornou uma das músicas mais marcantes do repertório, frequentemente associada ao Dia das Mães e à relação entre mães e filhos no Brasil.
13 – A discrição na vida pessoal
Roberto Carlos sempre tratou a vida pessoal com discrição e raramente entra em detalhes em entrevistas. Mesmo episódios marcantes, como o acidente na infância, só aparecem de forma indireta, principalmente nas músicas “O Divã” e “Traumas”.
Ao longo da carreira, informações mais íntimas foram sendo reveladas aos poucos, muitas vezes por meio de biógrafos ou em declarações pontuais, o que reforça o cuidado em separar a vida privada da imagem pública.
14 – A fé declarada
Roberto afirma que segue católico. No site oficial, diz que “não mudei de religião, continuo católico como sempre fui”.
A religiosidade também aparece em músicas como “Nossa Senhora” e “Jesus Cristo”.
15 – Os rituais antes do palco
Antes de subir ao palco, Roberto Carlos costuma rezar, fazer reiki e tomar vinho. A rotina foi relatada ao longo dos anos e se repete como parte da preparação para as apresentações.
Os hábitos mostram um lado disciplinado e espiritualizado do artista, mantidos mesmo após décadas de carreira.
16 – O TOC e os hábitos
Convive com Transtorno Obsessivo Compulsivo e mantém rituais no dia a dia.
Evita certas cores, números e palavras, além de repetir hábitos como lavar as mãos com frequência.
17 – As superstições
Roberto Carlos evita os números 2, 6 e 13 e também não usa roupas nas cores preta e marrom. Além disso, evita assinar documentos durante a lua minguante.
As restrições fazem parte da rotina e são mantidas ao longo dos anos, como um conjunto de cuidados que ele segue no dia a dia. As cores preferidas de Roberto Carlos são azul e branco.
18 – O gosto por doces
Nos estúdios, costuma pedir sorvete e brownie.
O sorvete preferido é o de abacaxi.
19 – O cuidado com a voz
Organiza a agenda para evitar desgaste e não realiza longas sequências de shows. Também mantém acompanhamento profissional constante para preservar o desempenho vocal ao longo dos anos.
20 – Os especiais de fim de ano
Desde 1974, só deixou de ter especial inédito em dois anos.
Em 1999, por causa da doença de Maria Rita, e em 2020, durante a pandemia.
21 – A coleção de carros
Já teve modelos como Chrysler Imperial Crown 1965, Audi R8 Spyder e Lamborghini Gallardo.
O primeiro carro foi um Fusca 1960, comprado com o dinheiro do disco “Splish Splash”.
22 – A tradição das rosas
Ao final das apresentações, distribui 144 rosas vermelhas e 36 brancas para o público. O gesto se tornou uma das marcas mais reconhecidas da carreira.
Festival do Rei
O show deste domingo (19) encerra a programação do festival e deve reunir fãs de diferentes gerações. A proposta, segundo o chef Alessandro Eller, é integrar experiências, já que “são tantas emoções que, desta vez, a gente vai sentir todas elas à mesa e também no palco”.
Em Cachoeiro, a expectativa não é apenas pelo repertório. É por tudo o que vem junto com ele.


