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Suspensão de ações sobre consignado amplia perdas de aposentados
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Marcos Pimentel

Marcos André Amorim Pimentel assina a coluna de Direito Previdenciário no Portal Sim Notícias. Sócio fundador e responsável pela gestão comercial do escritório Marcos Pimentel Advogados, é bacharel em Direito e em Administração de Empresas, com mais de 30 anos de experiência em gestão empresarial e resolução de conflitos. Possui pós-graduação em Direito Tributário e Planejamento Fiscal pelo IPOG e em Direito e Prática Previdenciária pela Atame. Na coluna, aborda a Previdência Social de forma técnica, clara e objetiva, analisando semanalmente alterações legislativas, decisões dos tribunais superiores e os impactos nos cálculos de benefícios, com foco na compreensão dos direitos e deveres junto à Seguridade Social.
O desconto não para e a conta pesa no bolso de quem mais precisa. Foto: Pexels
O desconto não para e a conta pesa no bolso de quem mais precisa. Foto: Pexels

A decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de suspender, em todo o país, os processos que discutem a validade dos contratos de cartão de crédito consignado (RMC/RCC) escancarou uma realidade que há anos prejudica aposentados e pensionistas do INSS: quando o conflito envolve grandes instituições financeiras, a resposta do sistema costuma ser lenta — mas os descontos continuam imediatos.

Na prática, milhões de brasileiros que recorreram à Justiça para cancelar cobranças abusivas agora se encontram em uma situação de profunda injustiça.

Os processos foram paralisados. Mas os descontos continuam acontecendo todos os meses.

Essa suspensão nacional ocorreu no âmbito do Tema 1.414 do STJ e representa, sem exagero, uma das decisões mais prejudiciais aos aposentados dos últimos anos.

O que decidiu o STJ no Tema 1.414

O STJ determinou a suspensão nacional de todos os processos que discutem:

  • A legalidade dos contratos de cartão de crédito consignado (RMC/RCC)
  • A conversão automática de empréstimo em cartão
  • A falta de informação clara ao consumidor
  • A cobrança de valores abusivos
  • A validade de contratos firmados sem consentimento adequado

Essa suspensão atinge:

  • Juizados Especiais
  • Varas Cíveis
  • Tribunais de Justiça estaduais
  • Tribunais Regionais Federais

Ou seja, não importa o estado ou o tribunal — os processos ficaram congelados em todo o país.

E o mais preocupante é que:

  • não existe prazo para julgamento.

Isso significa que aposentados podem permanecer anos aguardando uma decisão definitiva, enquanto continuam pagando por contratos que estão sendo questionados na Justiça.

O cartão consignado se tornou uma armadilha financeira para aposentados

O chamado cartão consignado se transformou em uma das maiores causas de endividamento entre aposentados e pensionistas no Brasil.

O problema começa com uma situação muito comum:

  • O consumidor acredita estar contratando um empréstimo consignado tradicional.

Mas, na realidade, o banco formaliza um cartão de crédito consignado.

A partir daí:

  • Apenas o valor mínimo é descontado
  • A dívida não diminui de forma significativa
  • Os juros continuam sendo cobrados
  • O contrato se prolonga por anos

Na prática, o aposentado entra em um ciclo de endividamento permanente.

Não por falta de responsabilidade, mas por falta de informação clara.

Esse modelo vem sendo questionado em milhares de processos por motivos como:

  • Falta de transparência
  • Informação confusa ou incompleta
  • Juros elevados
  • Descontos indevidos
  • Fraudes e contratos não autorizados

A maior injustiça: os descontos continuam mesmo com os processos suspensos

Aqui está o ponto mais grave — e que precisa ser dito com clareza.

Mesmo com os processos suspensos:

  • Os bancos continuam descontando
  • As dívidas continuam aumentando
  • O prejuízo continua sendo do aposentado
  • O sofrimento continua sendo mensal

A suspensão dos processos, sem a suspensão dos descontos, cria um desequilíbrio evidente.

Na prática, a situação ficou assim:

  • O banco continua recebendo.
  • O aposentado continua pagando.
  • E a Justiça pede para esperar.

Esse cenário revela um problema estrutural.

O sistema, muitas vezes, acaba funcionando para preservar o fluxo financeiro das instituições, enquanto o cidadão mais vulnerável permanece desprotegido.

Estados que já sofrem diretamente com essa decisão

A decisão tem alcance nacional, mas alguns estados são especialmente afetados pelo grande número de ações judiciais envolvendo cartão consignado.

Entre os estados mais impactados estão:

  • São Paulo
  • Minas Gerais
  • Rio de Janeiro
  • Bahia
  • Pernambuco
  • Ceará
  • Pará
  • Maranhão
  • Goiás
  • Espírito Santo
  • Paraná
  • Rio Grande do Sul

Nesses estados, milhares de processos foram suspensos simultaneamente, deixando aposentados e pensionistas em situação de insegurança financeira e jurídica.

Em muitos casos, estamos falando de pessoas que vivem com:

  • apenas um salário mínimo
  • gastos elevados com medicamentos
  • dependência total do benefício previdenciário
  • pouca margem financeira para suportar novos prejuízos

O paralelo necessário: o prejuízo causado pelos bancos pode ser maior que o escândalo dos descontos sindicais indevidos

Nos últimos anos, o país acompanhou um escândalo envolvendo descontos sindicais indevidos em benefícios previdenciários, que gerou forte repercussão social e institucional.

Esse caso mobilizou órgãos públicos, imprensa e autoridades — e com razão.

No entanto, é importante fazer um paralelo que raramente é discutido.

O impacto financeiro das práticas abusivas envolvendo cartão consignado pode ser muito maior do que o prejuízo causado pelos descontos sindicais indevidos.

Isso acontece por três motivos principais.

O valor individual costuma ser muito maior

Enquanto os descontos sindicais geralmente envolviam valores menores, os descontos de cartão consignado podem atingir:

  • valores elevados por mês
  • por períodos longos
  • sem previsão clara de término

O número de contratos é enorme

O cartão consignado foi amplamente ofertado a aposentados e pensionistas em todo o país, especialmente entre:

  • idosos
  • pessoas com baixa escolaridade
  • beneficiários de baixa renda

Hoje, existem milhões de contratos ativos.

E muitos deles estão sendo questionados judicialmente.

O prejuízo é contínuo e silencioso

Esse tipo de problema não acontece de uma só vez.

Ele acontece mês após mês.

Sem alarde.

Sem aviso.

Sem proteção imediata.

Quando o aposentado percebe, já pagou valores altos — e muitas vezes não sabe como sair da situação.

Por isso, é possível afirmar com responsabilidade:

o impacto financeiro e social das práticas abusivas envolvendo cartão consignado pode superar, em muito, o prejuízo causado pelos descontos sindicais indevidos.

E, ainda assim, os processos foram suspensos.

Mais uma derrota para aposentados e pensionistas

Não há como ignorar a realidade.

A suspensão nacional dos processos representa, sim, mais uma derrota para aposentados e pensionistas.

Porque:

  • o problema continua
  • os descontos continuam
  • a dívida continua
  • a insegurança continua

E a solução foi adiada.

Sem prazo.

Sem garantia.

Sem proteção imediata.

O que os aposentados podem fazer agora

Mesmo com a suspensão dos processos, ainda existem medidas possíveis.

Por exemplo:

  • Solicitar a suspensão dos descontos por meio de pedido judicial específico
  • Buscar revisão administrativa do contrato
  • Registrar reclamação formal junto ao banco
  • Verificar se houve fraude ou contratação irregular
  • Procurar orientação jurídica especializada

Cada situação precisa ser analisada individualmente.

E, em muitos casos, ainda é possível interromper cobranças indevidas.

Conclusão

A decisão do STJ no Tema 1.414 trouxe insegurança e frustração para milhões de aposentados e pensionistas em todo o Brasil.

O problema não é apenas a suspensão dos processos.

O problema é permitir que os descontos continuem enquanto a solução fica indefinida.

O direito não pode ser lento apenas para quem depende dele para sobreviver.

E a Justiça precisa enxergar que, por trás de cada processo suspenso, existe uma pessoa real tentando proteger sua renda e sua dignidade.

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