Além do Divã
Efeito holofote: a sensação de que todos estão te observando
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Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.
Entender o efeito holofote é um convite para diminuir a autocobrança. Foto: Pexels
Entender o efeito holofote é um convite para diminuir a autocobrança. Foto: Pexels

Em geral nutrimos muita estima e cuidado com nossa imagem pessoal e reputação. E uma das grandes preocupações cotidianas que temos pode se resumir na seguinte questão: o que o outro pensa de mim? Isso nos leva a uma vigilância constante de nossa conduta e aparência nos ambientes em que circulamos.

Com isso, temos muitos momentos na qual sentimos que todos estão nos reparando, como se fossemos uma atração para o olhar alheio. Seja por uma roupa, de algo que dissemos ou até de situações que se destacam no ambiente. E a sensação é a seguinte: parece que um holofote foi aceso e estamos no centro do palco.

No entanto, é curioso observar que na grande maioria das vezes, esse palco só existe na sua cabeça. Esse fenômeno pode ser traduzido enquanto efeito holofote. Encontramos esse fenômeno em estudos na psicologia, como é o caso do “The spotlight effect in social judgment: An egocentric bias in estimates of the salience of one's own actions and appearance”.

Ele descreve a tendência que temos de superestimar o quanto as outras pessoas percebem ou prestam atenção em nossas atitudes, falhas ou aparência. Em outras palavras, acreditamos que somos muito mais observados e avaliados do que realmente somos.

Pesquisas clássicas sobre o tema mostraram isso de forma curiosa. No estudo supracitado desse assunto, participantes foram convidados a entrar em uma sala usando uma camiseta considerada constrangedora. Antes de entrar, eles foram questionados: quantas pessoas você acha que vão notar sua camiseta? A estimativa geralmente era alta. Porém, quando os pesquisadores perguntaram às pessoas da sala se haviam percebido a camiseta, o número real era muito menor.

A diferença entre o que imaginamos e o que realmente acontece revela algo importante: cada pessoa está muito mais ocupada com a própria vida do que com a nossa. E vale destacar que não se trata de uma categoria psicopatológica ou transtorno mental, mas de um efeito psicológico e social.

Ele acontece porque vivemos dentro da nossa própria experiência, geralmente organizada e centrada no nosso próprio eu. Somos espectadores permanentes de nossa própria história, e como muito do que sentimos e experimentamos é tão evidente para nós, acabamos supondo que também seja evidente para os outros. Mas são apenas as conjecturas do nosso ego sendo projetadas para o outro, como afirma o psicanalista Lacan: “nosso ego é paranóico”.

No final das contas, cada pessoa também está lidando com suas próprias preocupações: o que disse na reunião, como foi vista em uma conversa, se falou algo inadequado ou se sua roupa está chamando atenção. No fundo, todos estão um pouco ocupados demais com seus próprios “holofotes”. Será que vivemos em uma verdadeira “torre de Babel” onde existem vários egos convivem e falam cada um a sua própria língua?

Porém, perceber isso pode ser libertador. Significa que aquele pequeno erro numa conversa provavelmente passou despercebido ou que em pouco tempo você será esquecido pelo outro. Que a roupa que você achou estranha talvez ninguém tenha notado. Que aquele momento que você considerou embaraçoso não ficou gravado na memória coletiva como você imaginou.

Permita-se ser desimportante!

Às vezes, o julgamento mais duro não vem do outro. Vem de nós mesmos.

Entender o efeito holofote é um convite para diminuir a autocobrança e lembrar de algo simples: o mundo não está nos observando o tempo todo.

Isso te assusta ou te conforta?

E isso, longe de ser ruim, pode ser justamente o que nos dá mais liberdade para viver com menos medo e mais espontaneidade.

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