Planejar é Viver
Split payment muda a lógica do endividamento empresarial

Durante muito tempo, muitas empresas brasileiras conviveram com uma espécie de ilusão financeira: faturamento era confundido com dinheiro disponível.

Vendia-se, recebia-se o valor integral da operação e, somente depois, dentro do calendário tributário, ocorria o pagamento dos impostos. Nesse intervalo, parte de um dinheiro que, na prática, pertencia ao Fisco acabava transitando pelo caixa da empresa.

Isso está mudando.

A reforma tributária trouxe para o centro da discussão um mecanismo que merece muito mais atenção dos empresários do que vem recebendo: o split payment.

Previsto na legislação da CBS e do IBS, o modelo permite que, nas operações abrangidas pelo mecanismo, os valores correspondentes aos tributos sejam segregados no momento da liquidação financeira da transação e direcionados ao Fisco. Em outras palavras: uma parcela do dinheiro da venda poderá sequer ingressar no caixa disponível da empresa.

Pode parecer apenas uma mudança operacional ou tributária.

Não é.

É também uma profunda mudança financeira.

E talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores desafios para as empresas nos próximos anos.

O caixa vai ficar mais verdadeiro — e mais apertado

O split payment tende a produzir um efeito importante: separar com maior velocidade aquilo que é receita da empresa daquilo que corresponde ao tributo da operação.

Do ponto de vista de transparência e arrecadação, a lógica é compreensível. Do ponto de vista empresarial, porém, ela exige uma revisão cuidadosa da gestão de liquidez.

Durante décadas, muitas empresas incorporaram indiretamente o prazo existente entre o recebimento de uma venda e o recolhimento dos impostos à administração de seu capital de giro.

Não significa necessariamente que estivessem inadimplentes.

Significa que aquele dinheiro permanecia temporariamente dentro do fluxo financeiro da companhia.

Quando essa parcela deixa de transitar pelo caixa disponível, a fotografia muda.

A empresa pode continuar faturando o mesmo valor e, ainda assim, perceber que dispõe de menos recursos imediatos para pagar fornecedores, folha, despesas operacionais e, principalmente, bancos.

E é justamente neste ponto que o split payment se encontra com outro tema que considero decisivo para o futuro das empresas brasileiras: a gestão dos passivos bancários.

O problema não é dever. É dever errado.

Existe uma visão equivocada de que empresa saudável é empresa sem dívida.

Não necessariamente.

Crédito é instrumento de crescimento. Financiar uma máquina, uma expansão, uma aquisição, um projeto ou uma necessidade de capital de giro pode fazer absoluto sentido econômico.

O problema começa quando a dívida deixa de financiar a estratégia e passa a financiar permanentemente o desequilíbrio do caixa.

E isso acontece com uma frequência maior do que muitos empresários admitem.

A companhia contrata um capital de giro aqui, antecipa recebíveis ali, utiliza uma conta garantida, toma outra linha em um segundo banco e renova uma operação que estava prestes a vencer.

Quando percebe, possui cinco, seis ou dez contratos financeiros diferentes.

Cada um com sua taxa.

Seu vencimento.

Sua garantia.

Sua amortização.

E sua pressão sobre o caixa.

Nesse momento, o empresário já não administra mais uma política de endividamento.

Administra boletos bancários.

O gerente do banco administra o banco. O empresário precisa administrar a empresa.

Os bancos são fundamentais para a economia e para o financiamento das empresas.

Mas existe um princípio básico que não pode ser esquecido: a instituição financeira possui seus próprios objetivos, limites de crédito, políticas de risco e metas de rentabilidade.

Cabe ao empresário defender os interesses de sua companhia.

Por isso, uma empresa não deveria estruturar seu endividamento exclusivamente a partir das ofertas que chegam de suas instituições financeiras.

A pergunta correta não é:

“Qual banco oferece a menor taxa?”

A pergunta correta é:

“Qual estrutura de dívida a minha geração de caixa consegue suportar?”

São coisas completamente diferentes.

Uma operação com taxa aparentemente menor pode ser pior se tiver prazo curto demais.

Uma linha com carência pode ser inadequada se concentrar amortizações justamente no período de menor geração de caixa.

Uma renegociação pode aliviar os próximos três meses e criar um problema muito maior doze meses depois.

E uma garantia oferecida hoje pode limitar a capacidade de obtenção de crédito amanhã.

Gestão de passivos é olhar tudo isso junto.

O split payment aumenta a urgência dessa discussão

A reforma tributária do consumo está sendo implementada de forma gradual. Em 2026, CBS e IBS estão em período de transição e adaptação, enquanto Receita Federal e Comitê Gestor do IBS avançam também na infraestrutura necessária ao novo sistema. Em maio de 2026, por exemplo, foi autorizada a publicação do Manual de Integração e das especificações técnicas da plataforma pública de split payment para instituições e prestadores de serviços de pagamento iniciarem o desenvolvimento de suas soluções.

Portanto, não estamos falando de uma hipótese distante.

Estamos falando de uma transformação para a qual as empresas precisam começar a preparar suas estruturas financeiras.

Se uma companhia hoje utiliza parte do fluxo financeiro entre recebimentos e obrigações tributárias para sustentar seu capital de giro, essa dinâmica precisará ser revista.

E, se ao mesmo tempo essa empresa carrega um volume significativo de parcelas bancárias mensais, o alerta precisa ser ainda maior.

O faturamento pode permanecer igual.

A margem pode permanecer igual.

Mas a liquidez disponível ao longo do mês pode mudar.

Por isso, projeções de fluxo de caixa feitas com base exclusivamente no comportamento histórico poderão deixar de refletir adequadamente a nova realidade.

Renegociar dívida antes da necessidade é estratégia. Depois da necessidade, é sobrevivência.

Este talvez seja um dos pontos mais importantes.

Empresas costumam procurar ajuda para seus passivos quando o problema já chegou.

A parcela vence na sexta-feira.

O limite acabou.

O banco não renovou.

O fornecedor precisa receber.

A folha está chegando.

Nesse estágio, o poder de negociação diminui drasticamente.

Gestão profissional de passivos significa fazer exatamente o contrário.

É antecipar.

Mapear todas as dívidas, consolidar os contratos, calcular o custo efetivo, identificar garantias comprometidas, analisar vencimentos, confrontar o serviço da dívida com a geração futura de caixa e construir cenários.

Depois disso, decidir.

Pode ser necessário alongar dívidas.

Trocar operações caras por estruturas mais adequadas.

Reduzir amortizações mensais.

Liberar garantias.

Diversificar instituições financeiras.

Buscar novas fontes de funding.

Ou até mesmo concluir que determinada dívida deve permanecer exatamente como está.

A boa assessoria não existe para renegociar tudo.

Existe para saber o que deve ser renegociado, quando, com quem e em quais condições.

Assessoria especializada deixou de ser luxo

Durante muito tempo, empresários recorreram a assessorias financeiras apenas em momentos de crise.

Essa lógica precisa mudar.

Em um ambiente de transformação tributária, crédito seletivo, margens pressionadas e novas dinâmicas de liquidez, gerir passivos bancários tornou-se parte da estratégia empresarial.

Contabilidade informa o passado.

Orçamento projeta o futuro.

Mas é a gestão de caixa que decide se a empresa consegue atravessar o caminho entre os dois.

E dívida mal estruturada pode destruir uma boa operação.

O split payment apenas torna essa realidade mais evidente.

À medida que o dinheiro dos tributos deixa de permanecer temporariamente disponível no caixa, o empresário terá uma visão mais fiel — e talvez mais dura — da liquidez real de seu negócio.

Algumas empresas descobrirão que estão mais organizadas do que imaginavam.

Outras descobrirão que parte do capital de giro que julgavam possuir nunca foi, de fato, capital próprio.

É melhor descobrir isso agora.

Porque, no mundo financeiro que está se formando, administrar bem uma empresa não será apenas saber quanto ela vende ou quanto ela lucra.

Será saber exatamente quanto dinheiro permanece no caixa, por quanto tempo e quais compromissos ele precisa sustentar.

E quem deixar para reorganizar suas dívidas somente quando o caixa apertar provavelmente descobrirá uma velha regra do mercado financeiro:

dinheiro é sempre mais caro quando você precisa dele com urgência.

Foto de Marcos Pimentel

Marcos Pimentel

Marcos André Amorim Pimentel assina a coluna de Direito Previdenciário no Portal Sim Notícias. Sócio fundador e responsável pela gestão comercial do escritório Marcos Pimentel Advogados, é bacharel em Direito e em Administração de Empresas, com mais de 30 anos de experiência em gestão empresarial e resolução de conflitos. Possui pós-graduação em Direito Tributário e Planejamento Fiscal pelo IPOG e em Direito e Prática Previdenciária pela Atame. Na coluna, aborda a Previdência Social de forma técnica, clara e objetiva, analisando semanalmente alterações legislativas, decisões dos tribunais superiores e os impactos nos cálculos de benefícios, com foco na compreensão dos direitos e deveres junto à Seguridade Social.

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