Inovação
A nova política industrial. Sem os erros do passado?
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Evandro Milet

Evandro Milet é consultor, palestrante e articulista sobre tendências e estratégias para negócios inovadores. Possui Mestrado em Informática(PUC/RJ) e MBA em Administração(FGV/RJ). É Conselheiro de Administração pelo IBGC, Membro da Academia Brasileira da Qualidade-ABQ, Membro do Conselho de Curadores do Ibef/ES e membro do Conselho de Política Industrial e Inovação da Findes. Foi Presidente da Dataprev, Diretor da Finep e do Sebrae/ES, Conselheiro do Serpro e Banestes. Tem extensa atuação como empresário, executivo e consultor em inovação, estratégia, gestão e qualidade, além de investidor e mentor de startups, principalmente deeptechs. Tem participação em programas de rádio e TV sobre inovação. É atualmente Presidente do Cdmec-Centro Capixaba de Desenvolvimento Metal-Mecânico.
Grandes máquinas de uma indústria durante a produção.
Indústria. Foto: Divulgação

Várias correntes de pensamento disputam hoje, alguns com dados e outros com desconfianças, qual deveria ser – ou se deveria haver – uma política industrial no país.

A visão liberal na economia sempre rejeitou em princípio a ideia, considerando que governos não conseguem saber para qual lado a iniciativa privada irá e, portanto, qualquer tentativa de apontar caminhos vai errar e trazer prejuízos. Os exemplos apresentados do sucesso dos países asiáticos como decorrentes de políticas industriais sempre foram contestados por essa linha, argumentando que mais importantes foram a política educacional e a ênfase na exportação, além de um bom ambiente de negócios.

Aos argumentos contrários para uma política industrial no Brasil se somam a dificuldade de interromper programas que não funcionaram, as restrições à importação, a captura da política por empresários, a insegurança jurídica e o nível de corrupção. Na época da nova matriz econômica, houve ainda uma transferência enorme de recursos do tesouro para subsidiar grandes empresas sem o retorno que se esperaria, desorganizando a economia e aumentando juros e inflação para todo mundo.

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É uma realidade o fato de que investidores gostam de estabilidade para conseguir avaliar o retorno de um possível investimento, e políticas mal administradas geram inflação, juros altos e instabilidade do câmbio.

Se todos os problemas citados fossem resolvidos, o nível de investimento, inclusive de capital externo, seria tanto que uma política industrial poderia ser menos direta.

Mas não é o caso e enquanto se tenta resolver o que é possível, com cabos de guerra puxados para lados contrários, a desindustrialização se acelera.

A Nova Indústria Brasil, política industrial recém lançada pelo governo, tem pontos que procuram evitar erros passados e sinalizar estratégias razoáveis. Não há avalanche de recursos do Tesouro, pega a onda da transição energética e da bioeconomia, procura suprir carência industriais de segurança percebidas durante a pandemia na área de saúde, apoia a indústria associada à infraestrutura e mobilidade, procura aproveitar a forte vocação brasileira para o agro turbinando uma agroindústria, apoia a transformação digital e a tecnologia de defesa e tem ênfase forte em desenvolvimento tecnológico e exportação. Há iniciativas também para ampliar a infraestrutura de qualidade e a aceleração de registro de patentes e a formação de técnicos, dentro de um grande foco em tecnologia e inovação.

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Mesmo que tivéssemos o melhor ambiente de negócios, apenas deixar a iniciativa privada investir no que considera importante e lucrativo, não garante a internalização da capacidade de desenvolver tecnologia – que é bastante diferente de usar tecnologia. O decantado sucesso da Embraer tem a ver com a sua capacidade de projetar aviões e ser a cabeça de uma cadeia produtiva mundial, e é resultado de uma política industrial de fato, com investimentos em pessoas, tecnologia, exportação e apoiado inicialmente por compras governamentais. A margem de até 20% de preferência na compra pelo governo de serviços com tecnologia nacional, exigências razoáveis de conteúdo local e a possibilidade de encomendas tecnológicas abrem espaço para a criatividade nacional e isso não é novidade no mundo.

Afinal de contas, os americanos sempre fizeram política industrial na área de defesa e na corrida espacial e fazem agora na transição energética e na microeletrônica. A China, nem se fala. A Europa corre atrás. Vamos fazer a nossa e vigiar para que não se repitam os erros do passado.

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