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Cachaça capixaba é eleita a melhor do mundo. O que a Dose Clássica tem para fazer história?
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Fabio Botacin

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A notícia chegou de Londres, mas ecoou forte no Espírito Santo – em especial em Aracruz. A Dose Clássica, cachaça produzida no interior capixaba, acaba de ser coroada a melhor do mundo no World Drinks Awards 2026. O título, inédito para uma cachaça brasileira, coloca a marca capixaba no topo de uma competição que costuma ser chamada de Copa do Mundo das bebidas.

A vencedora foi a Dose Clássica Blend Nº 2 by Nelson Duarte. Além da medalha de ouro, levou o prêmio de World's Best Cachaça — o equivalente a ser eleita a melhor entre as melhores. O parecer dos jurados, divulgado no site oficial da premiação, destaca o “ótimo equilíbrio entre o destilado e o barril”, com notas herbáceas bem definidas e um toque amadeirado suave e harmonioso.

Não foi sorte.

A competição é rigorosa. Foram três dias de degustação às cegas, conduzidos por um painel de 10 a 15 especialistas de diferentes países. A organização recebeu cerca de 15 inscrições de cachaças de alto nível. Apenas duas marcas brasileiras chegaram à final. A Dose Clássica superou a concorrente e fez história.

Quem recebeu o prêmio em Londres foi o empresário Ralph Ferreira Junior, que comanda a produção ao lado do filho Rodolpho. A emoção era visível. E dá para entender o motivo: a trajetória da marca começou há mais de 40 anos, num alambique de aço inoxidável que, no primeiro teste, não produziu nada além de um líquido tão ruim que foi parar no ralo.

“Lembrar daquele líquido intragável de 40 anos atrás e ver nossas garrafas recebendo a consagração máxima, julgadas pelos maiores especialistas do planeta, é a prova de que a persistência, quando unida à busca obsessiva pela qualidade, transforma qualquer realidade”, disse Ralph, ainda em Londres.

 

O que faz a Dose Clássica ser especial

A história da Dose Clássica não é uma herança de família nem um plano de marketing bem engendrado. Começou com uma tentativa frustrada, nos anos 1980, e só foi retomada de fato nos anos 2000, quando um funcionário encontrou o alambique parado e resolveu tentar fazer cachaça. O resultado foi servido num churrasco para amigos. O veredicto: a pior cachaça que já tinham provado. O garrafão de cinco litros foi pro ralo no mesmo dia.

A partir daí, o projeto mudou de rumo. Ralph cercou-se de especialistas e passou a visitar alambiques no Espírito Santo para entender o que funcionava — e o que não funcionava. Não se tratava de copiar modelos, mas de compreender processos.

Um dos primeiros diferenciais apareceu na fermentação. As dornas tradicionais, altas, foram substituídas por dornas baixas e de boca larga, encomendadas sob medida. O desenho era visto como fora do convencional, mas amplia a superfície de contato, melhora a troca térmica e dá mais controle sobre o processo. A temperatura é mantida constante em 20 °C, o que reduz a formação de defeitos e torna a fermentação mais previsível. E o segredo que Ralph não esconde: a fermentação acontece exclusivamente com leveduras selecionadas da própria cana.

Ai que mora o diferencial que poucas vezes foi visto, com aplicação de ciência e meio ambiente para uma melhor cachaça. O processo foi estudado, os ingredientes eram completamente selecionados e o inegociável: a Dose Clássica abandonou as leveduras comerciais e passou a trabalhar com a microbiologia local – na interação entre cana, levedura e território.

Aracruz como ingrediente

A produção fica em Aracruz, uma região marcada pela proximidade com o mar. A maresia interfere diretamente na cana-de-açúcar, deixando-a com uma película oleosa natural. E aqui entra uma decisão pouco comum: a cana não é lavada antes da moagem. A ideia é manter as propriedades presentes na planta, inclusive seus microrganismos.

Diversas variedades de cana foram testadas ao longo dos anos. A que melhor se adaptou ao clima de Aracruz foi a popularmente chamada de Nega Pelada, uma variedade rústica, de coloração avermelhada, que não emite pendão (a flor da cana) e perde naturalmente suas folhas. Num terreno que seca rápido e sofre com escassez hídrica, essa adaptação faz toda a diferença.

A destilação é feita em alambique de fogo direto. O aquecimento direto exige atenção constante e experiência, mas permite respostas mais rápidas às variações do mosto. A técnica não elimina o fator humano – ela o exige.

Um dos princípios mais inegociáveis da Dose Clássica é a não diluição da cachaça com água. A graduação alcoólica final não é ajustada artificialmente após a destilação. Ela chega ao ponto desejado com o tempo, seja em inox, seja na madeira. Para Ralph, esse detalhe é central: a água pode contribuir com a padronização e aumentar o volume de produção, mas também dilui estrutura, textura e identidade.

Madeira tem sabor

A Dose Clássica construiu parte importante de sua identidade explorando madeiras brasileiras: castanha-do-pará, amburana, bálsamo e jequitibá-rosa foram utilizadas ao longo dos anos, sempre com atenção ao impacto sensorial e ao tempo de descanso.

Além das madeiras nacionais, a cachaça também repousa em barris de jaqueira e de carvalho americano.

Premiações e reconhecimento

Antes da conquista em Londres, a Dose Clássica já acumulava resultados expressivos. Em 2019, recebeu a Grand Gold Medal no Concurso Mundial de Bruxelas, considerado o maior do mundo em premiações de destilados. Em 2025, foi a vez da Dose Clássica Cristal conquistar o título de melhor cachaça da América Latina no Catad'Or World Spirits Awards, realizado no Chile, recebendo a medalha Gran Ouro — honraria reservada a bebidas de excelência excepcional.

Agora, com o título mundial em Londres, a marca alcança um patamar que nenhuma outra cachaça havia atingido antes.

O que fica

A Dose Clássica não tenta ser didática no rótulo nem exuberante na comunicação. Sua história se revela aos poucos, para quem pergunta, visita, prova com atenção. É uma cachaça que aposta na técnica e nas convicções do seu produtor como ferramentas de expressão.

Olhando para trás, fica claro que cada erro inicial, cada teste frustrado e cada garrafão descartado ajudaram a construir um método próprio — muitas vezes contradizendo a visão de especialistas que julgavam ser impossível produzir cachaça no clima seco de Aracruz.

Não há na Dose Clássica a pressa do mercado nem o discurso fácil da tradição vazia. Há, sim, um projeto que entende a produção de cachaça como um processo de constante evolução.

A medalha recebida em Londres certifica a bebida e mais: valida um método de produção, uma história empresarial e uma aposta na qualidade como diferencial competitivo. E, de quebra, coloca o Espírito Santo num lugar onde nenhum outro estado brasileiro tinha chegado antes no World Drinks Awards.

 

Entre o primeiro líquido considerado intragável e o anúncio da melhor cachaça do mundo, existe uma distância de mais de 40 anos. E também existe uma lição que os jurados não conseguem medir em nenhuma taça: a de que persistência, quando acompanhada de técnica e de respeito ao território, pode transformar qualquer realidade.

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