Na coluna Educação Sim, da Grupo SIM, propomos uma reflexão necessária para famílias, educadores e todos que se preocupam com o desenvolvimento infantil: qual é o impacto do uso excessivo de telas na infância?
Vivemos em uma era digital. Celulares, tablets, televisões e computadores fazem parte da rotina dos adultos e chegam cada vez mais cedo às mãos das crianças. No entanto, quando falamos da primeira infância, período que vai de 0 a 6 anos, uma pergunta precisa ser feita: o que a criança deixa de viver quando passa tempo demais diante de uma tela?
A infância é uma fase de experiências concretas. A criança aprende tocando, correndo, observando, perguntando, experimentando, imitando, criando histórias e convivendo. É no contato com o mundo real que ela desenvolve linguagem, coordenação motora, atenção, memória, criatividade, autonomia, vínculos afetivos e habilidades sociais.
Por isso, o excesso de telas deve ser visto com atenção. A tela entrega imagens, sons, movimentos e respostas prontas. Muitas vezes, reduz o espaço da imaginação, porque a criança passa a consumir estímulos finalizados, em vez de criar seus próprios enredos. Quando brinca com blocos, tecidos, caixas, terra, água, bonecos, folhas ou objetos simples do cotidiano, ela precisa imaginar, transformar e inventar. É nesse espaço livre que a criatividade floresce.
Jean Piaget, importante estudioso do desenvolvimento infantil, defendia que a criança constrói conhecimento a partir da ação sobre o mundo. Ela aprende fazendo, testando, manipulando e experimentando. Vygotsky destacou a importância da interação social, da linguagem e da mediação do adulto. Ou seja: a criança se desenvolve nas relações, no diálogo, na escuta e na convivência.
Maria Montessori também contribui para essa reflexão ao valorizar o movimento, a autonomia e a experiência sensorial. Para ela, as mãos são instrumentos fundamentais da inteligência. A criança pequena precisa tocar, organizar, transportar, cuidar, montar, desmontar e participar da vida real. Quando a tela ocupa espaço demais, limita justamente essas experiências.
Outro ponto de atenção é o foco. Muitos conteúdos digitais são rápidos, coloridos, barulhentos e pensados para prender a atenção de forma intensa. Com isso, atividades mais lentas e profundas, como ouvir uma história, desenhar, montar um quebra-cabeça, esperar a vez ou brincar de faz de conta, podem parecer menos interessantes. O excesso de estímulos pode dificultar a concentração e a permanência em atividades que exigem calma, paciência e elaboração.
A saúde visual também merece cuidado. O uso prolongado de telas pode causar cansaço nos olhos, irritação, dor de cabeça e desconforto, especialmente quando a criança fica muito próxima do aparelho. Além disso, quando a tela substitui brincadeiras ao ar livre, ela perde oportunidades importantes de movimentar o corpo, olhar para longe, explorar a natureza e viver experiências essenciais ao desenvolvimento global.
Também é preciso reconhecer uma realidade comum na vida de muitas famílias: em alguns momentos, a tela aparece como uma solução rápida para situações desafiadoras da rotina. Ela é oferecida para que a criança consiga se alimentar, permaneça sentada em um restaurante, enfrente o percurso de casa até a escola ou espere enquanto os adultos resolvem outras demandas.
Essa prática, embora compreensível em uma rotina cada vez mais acelerada, merece atenção. Quando a tela passa a ser usada sempre que a criança precisa esperar, lidar com o tédio, permanecer à mesa ou se deslocar, ela deixa de experimentar situações fundamentais para a autorregulação. Esperar, conversar, observar o caminho, participar da refeição, perceber o ambiente e lidar com pequenos desconfortos também fazem parte da aprendizagem infantil.
A criança não nasce sabendo esperar, dividir a atenção ou organizar suas emoções. Ela aprende aos poucos, com presença e mediação dos adultos. Por isso, quando a tela ocupa automaticamente esse lugar, pode silenciar experiências simples e valiosas: olhar pela janela, conversar sobre o dia, escutar uma história, nomear sentimentos, observar pessoas e participar da vida ao redor.
O objetivo não é culpar as famílias, mas ampliar a consciência. A tela pode até acalmar por alguns minutos, mas não deve substituir continuamente o vínculo e as pequenas aprendizagens da vida cotidiana.
Um exemplo curioso vem do Vale do Silício, região dos Estados Unidos conhecida por concentrar grandes empresas de tecnologia. Reportagens já mostraram que algumas famílias de profissionais ligados à tecnologia optam por escolas com pouca ou nenhuma presença de telas, valorizando propostas pedagógicas baseadas em arte, movimento, natureza, criatividade e convivência. A mensagem é provocativa: até quem trabalha criando tecnologia reconhece que a infância precisa de tempo, presença e experiências reais.
Isso não significa demonizar a tecnologia. As telas fazem parte do mundo atual e podem ter usos positivos quando utilizadas com critério, tempo adequado, conteúdo de qualidade e acompanhamento dos adultos. O problema começa quando elas substituem o brincar, a conversa, o colo, a leitura, o desenho livre, a música, a natureza e a interação humana.
Na primeira infância, a criança não precisa de excesso de estímulos digitais. Precisa de chão, histórias, movimento, afeto, rotina, imaginação e presença. Precisa de tempo para se encantar com o simples, criar com as próprias mãos e descobrir o mundo com o corpo inteiro.
Reduzir telas não é atrasar a criança. Pelo contrário: é permitir que ela viva plenamente aquilo que é mais importante nessa fase da vida.
Menos telas pode significar mais infância. Mais criatividade. Mais vínculo. Mais atenção. Mais desenvolvimento.
E, acima de tudo, mais presença.





