Deixa eu te explicar o que está acontecendo com a sua carreira.
Uma das perguntas que eu mais escuto hoje em dia é: “eu preciso escolher uma coisa só?”. E eu entendo completamente essa dúvida. Durante muito tempo, eu me senti culpado pela minha multiplicidade, principalmente depois que comecei a empreender, porque pela primeira vez tive liberdade para experimentar diferentes versões minhas. E isso, em muitos momentos, parecia confusão, porque parecia que eu estava indo em direções demais ao mesmo tempo.
Só que a vida adulta também vai trazendo uma pressão silenciosa para que a gente se defina rápido. Como se a maturidade profissional significasse conseguir responder imediatamente quem você é, o que faz e onde quer chegar. E nem todo mundo funciona assim.
Existem pessoas que têm uma clareza muito objetiva sobre a própria trajetória, que sabem exatamente qual caminho querem seguir, aprofundam aquilo e constroem uma carreira extremamente coerente a partir dessa decisão. Mas existem outras pessoas que descobrem as coisas experimentando e acho que parte da angústia que vivemos contemporaneamente nasce justamente aí. Porque vivemos um momento obcecado por nicho, por definição e por especialização, como se qualquer movimento fora da linha reta significasse falta de foco.
E, quanto mais possibilidades aparecem, maior fica a sensação de que talvez você esteja fazendo tudo errado. Só que talvez o problema não seja fazer muitas coisas, talvez o problema seja ainda não conseguir identificar o que conecta todas elas. Porque, muitas vezes, as experiências parecem completamente diferentes na superfície, mas existe um jeito de pensar, uma habilidade ou uma forma de construir que continua se repetindo em todas elas. E isso muda muita coisa.
Porque quando você começa a identificar essa espinha dorsal, as experiências deixam de parecer partes soltas e você para de enxergar sua trajetória como uma coleção aleatória de interesses e começa a perceber continuidade. Às vezes, o que se repete não é o “o quê”, é o “como”. Foi isso que comecei a perceber na minha própria trajetória, durante muito tempo, parecia que eu transitava por universos muito diferentes. Mas, olhando com mais atenção, comecei a perceber que existia algo atravessando tudo: a forma como organizo narrativas, conecto ideias, traduzo contextos e ajudo pessoas a enxergarem valor no que fazem. As atuações, e suas roupagens, mudavam, mas o mecanismo continuava.
E acho que isso ajuda a diminuir um pouco a culpa que muita gente sente por não caber em uma definição simples, porque nem toda trajetória vai ser linear, nem toda carreira vai nascer pronta. E nem toda multiplicidade significa dispersão. Às vezes, significa apenas que você ainda está aprendendo a reconhecer o fio que conecta tudo o que faz.
E quando isso acontece, a sensação muda. Você deixa de procurar uma única resposta definitiva sobre quem deveria ser e começa a construir uma leitura mais honesta sobre quem já é.
Pílula Dourada
Você não precisa escolher uma coisa só, precisa entender o que continua se repetindo, mesmo quando tudo parece diferente.





