Além do Divã
Três tipos de amizade que a vida coloca no seu caminho
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Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.
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É saudável que a gente conheça os tipos de amizades que temos em nossa convivência para reconhecermos que tipo de situação estamos nos envolvendo. Afinal, existem tantos tipos de amizades quantas relações humanas possíveis, principalmente quando são “amizades verdadeiras”, que são tão raras quanto importantes viver. Porém, boa parte das amizades não são incomparáveis, pelo contrário, elas se repetem diariamente nas diversas relações cotidianas que temos com o outro. Ou seja, existe a amizade verdadeira e os outros tipos de amizades que nos circundam diariamente.

Sendo assim, vamos buscar compreendê-las dividindo a amizade em três: as amizades por prazer, por interesse e as virtuosas. Vale destacar que quem pensou a classificação das amizades desse modo foi Aristóteles, nascido na Grécia antiga em 384 a.C.. Talvez eu não seja completamente fiel aos termos do grego por pretender escrever para um público amplo, mas indico a leitura do livro “Ética a Nicômaco” aos que buscam uma maior precisão conceitual. Esse grande pensador dividiu as amizades desta forma e ainda vemos muitas atualidades e utilidades em seu pensamento.

Falando em utilidade, a primeira amizade que podemos abordar é por utilidade ou interesse, ou seja, nesse caso a aproximação entre duas ou mais pessoas pode se dar por um certo “lucro” na manutenção da relação. Eis a amizade mais comum. Um problema inerente desse tipo é o seguinte: quando uma das partes deixa de ser interessante aos propósitos pessoais do outro, a amizade acaba. Eis os riscos dessa conveniência, pois o outro seria apenas um instrumento (descartável) para meus anseios.

Por outro lado, a amizade por prazer já seria baseada no que há de agradável no outro e, neste caso, a satisfação mútua é a força que une as pessoas. Uma relação que busca o prazer define os momentos em que há a procura por pessoas que satisfazem essa condição, visando as companhias que podem oferecer alegrias e satisfações (geralmente imediatas e temporárias). Assim como a utilidade, essa amizade também tem seus dias contados, pois nem só de alegrias vivem as pessoas, e o prazer tem prazo de validade e tem seus limites. Não é, portanto, uma amizade para todas as horas.

Por último, encontramos a amizade virtuosa (ou “verdadeira”) baseada em si mesma e não enquanto um instrumento na obtenção de prazer ou utilidade. Eis a construção de uma amizade distinta da relação com qualquer outra pessoa (inclusive consigo mesmo) que busca, em conjunto com o amigo, um desenvolvimento das virtualidades de cada um. Cria-se um elo horizontal, em contraponto com os laços verticais e hierárquicos, andando de mãos dadas independente das contingências e consequências. Trata-se de um compromisso ético com a vida compartilhada com o outro, sem prazo de validade de numa crise, numa reciprocidade que os tornam únicos e incomparáveis. Afinal, não são temporários, mas comparáveis a elementos químicos que ao se unirem formam um composto: a amizade.

Não encontro outra forma de terminar esse texto a não ser citando o que disse o filósofo Montaigne sobre seu amigo Étienne de la Boétie, que faleceu muito jovem, deixando grandes heranças para a humanidade e, principalmente, uma amizade tão rara quanto sermos o melhor que poderíamos ser. E eis a declaração do filósofo ao seu amigo:

Se me obrigassem a dizer porque o amava, sinto que a minha única resposta seria:

Porque era ele, porque era eu.

(“Parce qu’était lui, parce qu’était moi”)

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