Tem algo muito relevante acontecendo no Brasil quando o assunto é saúde: pela primeira vez, a saúde mental ultrapassou o câncer como principal preocupação entre os brasileiros. E isso diz muito sobre o tempo em que estamos vivendo. Segundo levantamento da Ipsos, 52% da população aponta a saúde mental como sua maior preocupação de saúde, enquanto que o câncer conta com 38% em segundo lugar. Em 2018, essa preocupação era de 18%.
Talvez isso não signifique apenas que estamos adoecendo mais, mas também que estamos identificando e reconhecendo nosso sofrimento. Estamos na sociedade do cansaço, com exaustão laboral e emocional, sobrecarregados por uma lógica de desempenho e produtividade que faz as pessoas acreditarem que descansar é culpa, desacelerar é fracasso e sentir virou sinônimo de fraqueza. Existe uma geração inteira tentando funcionar enquanto emocionalmente já colapsou faz tempo.
A ansiedade deixou de ser um episódio e tem se tornado presença cada vez mais frequente no nosso modo de vida. Além disso, as redes sociais criaram a sensação constante de insuficiência, comparação e medo de ficar para trás. A exposição e a produtividade se tornaram critério de valor humano. E no meio disso tudo, muita gente começou a perceber que não estava vivendo, estava apenas sobrevivendo aos próprios dias.
O mais curioso é que, durante muito tempo, o sofrimento psíquico foi tratado como exagero, “frescura” ou falta de Deus. Hoje, ele aparece nas estatísticas, nos afastamentos do trabalho, nos relacionamentos desgastados, na insônia coletiva e na dificuldade cada vez maior de sustentar a própria existência sem adoecer.
Mas existe um detalhe importante nisso tudo: o fato da saúde mental ter virado preocupação central não significa necessariamente que aprendemos a cuidar dela. Muitas vezes, apenas aprendemos a falar sobre o assunto, mas isso já é um começo. Afinal, identificar um problema não significa que daremos os melhores encaminhamentos para ele.
Destacamos, ainda, que saúde mental não é apenas ausência de algum transtorno, mas de ter condições de existir sem se sentir esmagado o tempo inteiro. Algumas pessoas adoecem e continuam produzindo, e isso pode mascarar o problema. E talvez o maior sintoma da nossa época seja justamente esse: pessoas funcionando por fora e desmoronando por dentro.
E talvez a pergunta mais urgente hoje não seja “como produzir mais?”, mas sim:
em que momento viver ficou tão pesado? Por que normalizamos esse sofrimento?





