Ao longo da história, poucas ideias foram tão sedutoras quanto a promessa de que o Estado seria capaz de corrigir, controlar e reorganizar a economia de maneira mais eficiente do que o próprio mercado. Em momentos de crise, desigualdade ou instabilidade, cresce naturalmente a demanda por soluções rápidas, subsídios, expansão de gastos públicos e maior interferência estatal na atividade econômica. O problema é que, embora os benefícios dessas medidas sejam frequentemente imediatos e politicamente populares, seus custos costumam ser silenciosos, difusos e percebidos apenas no longo prazo.
O intervencionismo estatal raramente se apresenta de forma explícita como um fator destrutivo. Pelo contrário, normalmente vem acompanhado de discursos sobre proteção social, desenvolvimento econômico, incentivo à indústria nacional ou preservação do emprego. Entretanto, a economia opera sob leis que independem de intenções políticas. Recursos são escassos, incentivos importam e, como Ludwig von Mises destaca em “As Seis Lições”, toda intervenção produz consequências que muitas vezes extrapolam os objetivos inicialmente pretendidos.
Quando governos passam a interferir diretamente na formação de preços, seja por meio de subsídios, controle indireto ou pressão política sobre empresas estratégicas, o mercado deixa de operar com base exclusivamente em oferta, demanda e eficiência econômica.
A recente escalada das tensões no Oriente Médio reacendeu preocupações globais relacionadas ao petróleo e à logística energética internacional. Nesse contexto, a decisão de não repassar integralmente ao consumidor brasileiro a alta dos combustíveis observada no mercado internacional reacendeu uma antiga discussão sobre o papel do Estado na administração de preços. Embora essa estratégia possa suavizar temporariamente impactos inflacionários e gerar alívio político de curto prazo, ela também produz distorções econômicas relevantes e pouco perceptíveis à primeira vista.
Os efeitos dessa política, entretanto, vão além da percepção financeira. O controle indireto de preços também afeta o funcionamento de toda a cadeia de abastecimento. Atualmente, segundo dados da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes – Fecombustíveis –, cerca de 30% do diesel e 10% da gasolina consumidos no Brasil dependem de importações, sendo uma parcela relevante realizada por empresas privadas. Quando o preço doméstico permanece significativamente abaixo das referências internacionais por um período prolongado, importar combustível para o país deixa de ser economicamente viável para esses agentes. Como consequência, operações são interrompidas, margens desaparecem e a atratividade do mercado brasileiro diminui.
Esse talvez seja um dos exemplos mais claros do chamado “custo invisível” do intervencionismo estatal. Em um primeiro momento, o consumidor percebe apenas a estabilidade temporária nos preços dos combustíveis. Porém, nos bastidores, surgem distorções que reduzem a previsibilidade, desorganizam incentivos econômicos e enfraquecem a confiança de investidores e empresas privadas.
Portanto, faz-se necessário lembrar que o capital aceita volatilidade, crises e até períodos prolongados de incerteza econômica; contudo, dificilmente tolera a imprevisibilidade institucional e a substituição recorrente da racionalidade econômica por decisões políticas de curto prazo.
Autor: Bryan Ferreira – Engenheiro de Gestão de Ativos na Concremat e Membro do IBEF Academy.





