Além do Divã
Por que estamos tão nostálgicos: saudade do passado ou cansaço do presente?

A palavra nostalgia nasce da junção de dois termos gregos: nóstos, que significa “retorno ao lar”, e álgos, que significa “dor”. Sua origem remete ao sofrimento provocado pela impossibilidade de voltar para casa. Durante séculos, foi considerada uma doença, especialmente entre soldados que permaneciam distantes de sua terra natal. Hoje, entretanto, a nostalgia deixou de ser compreendida como um transtorno para ser reconhecida como uma experiência humana capaz de fortalecer a identidade, reduzir a sensação de solidão e ampliar o sentimento de pertencimento. Talvez isso explique por que ela voltou a ocupar um lugar tão importante em nossa cultura.

Não é difícil perceber esse movimento. O retorno dos discos de vinil, das câmeras digitais compactas, dos brinquedos retrô e a enorme procura pelo espetáculo de despedida da Xuxa, O Último Voo da Nave, não parecem ser acontecimentos isolados. Embora exista um evidente interesse comercial, esses fenômenos revelam algo que ultrapassa o consumo. Eles expressam uma tentativa coletiva de recuperar formas de viver que pareciam perdidas. Mais do que comprar objetos antigos, buscamos reencontrar experiências: ouvir um álbum inteiro, esperar pela revelação de uma fotografia, compartilhar lembranças comuns ou reviver personagens que ajudaram a construir nossa infância.

Talvez seja justamente aí que a nostalgia nos ajude a compreender o presente. Vivemos em uma cultura marcada pela aceleração, pelo excesso de informações e pela lógica da conexão permanente. Produzimos milhares de imagens que nunca mais veremos, consumimos conteúdos que desaparecem em segundos e mantemos relações frequentemente mediadas por telas. Não surpreende que movimentos como a desintoxicação digital, a valorização da herança cultural, o fortalecimento das relações presenciais e o interesse por tecnologias analógicas ganhem cada vez mais espaço. A nostalgia, nesse contexto, deixa de ser apenas uma saudade do passado e passa a funcionar como uma crítica silenciosa ao modo como organizamos a vida contemporânea.

Isso não significa que o passado tenha sido melhor. Toda nostalgia carrega certo grau de idealização, e nenhuma infância esteve livre de conflitos ou sofrimentos. Seu valor não está em transformar o ontem em um lugar ideal e perfeito, mas em recordar experiências que continuam oferecendo sentido e afeto para o presente. As lembranças ajudam a construir uma narrativa sobre quem somos e reforçam vínculos afetivos que muitas vezes permanecem vivos, mesmo quando os cenários mudam. A memória, nesse caso, não nos aprisiona ao que passou; ela pode ampliar nossa capacidade de habitar o agora.

Talvez, então, a questão não seja perguntar por que estamos tão nostálgicos. A pergunta mais interessante é outra: o que a nossa época deixou de oferecer para que tantas pessoas procurem no passado aquilo que lhes devolve calma, pertencimento, tempo compartilhado e presença? Se a nostalgia cresce como fenômeno cultural, ela não fala apenas da memória. Ela revela, sobretudo, um mal-estar do presente. E talvez sua maior contribuição para a saúde não esteja em nos fazer voltar para casa, como sugeria sua origem, mas em nos lembrar que ainda podemos construir um lugar onde valha a pena permanecer e se inventar.

Foto de Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.

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