Arena Digital
Os Amigos do Jucapixaba

Existe uma geração de capixabas que provavelmente sorriu apenas ao ler este título.

No início da década de 1980, muito antes da internet, dos smartphones, da inteligência artificial e até mesmo dos computadores pessoais fazerem parte da rotina das famílias, o Governo do Espírito Santo lançou uma das campanhas de educação fiscal mais criativas do Brasil. Nascia Os Amigos do Jucapixaba.

A ideia era simples e genial. As famílias guardavam as notas fiscais das compras e as trocavam por pacotes de figurinhas. O álbum apresentava a história, a cultura, a fauna, a flora, os municípios e as riquezas do Espírito Santo. As crianças colecionavam figurinhas, os pais aprendiam a exigir a nota fiscal e o Estado combatia a sonegação. Todos ganhavam. A iniciativa foi tão inovadora que recebeu o Top de Marketing da ADVB em 1981 e se tornou referência nacional em educação tributária.

Quarenta e cinco anos depois, percebe-se que a essência daquela ideia continua exatamente a mesma. O objetivo ainda é aproximar o cidadão do Estado utilizando a tecnologia para facilitar a vida das pessoas. Apenas mudaram as figurinhas.

Se naquela época a inovação consistia em trocar notas fiscais por um álbum, hoje ela está em colocar praticamente toda a relação entre cidadão e governo dentro do celular. As caixas de sapato cheias de documentos desapareceram, os postos de troca ficaram na memória e o álbum deu lugar a uma identidade digital capaz de abrir centenas de portas diferentes.

Enquanto alguns estados brasileiros ainda confundem transformação digital com colocar um formulário em PDF na internet, como se isso bastasse para modernizar o serviço público, o Espírito Santo resolveu seguir outro caminho. Entendeu que digitalizar não significa mudar o papel de lugar. Significa eliminar etapas, reduzir burocracias e devolver tempo ao cidadão. Existe uma enorme diferença entre escanear um documento e fazer com que ele simplesmente deixe de ser necessário.

É justamente essa a proposta do Acesso Cidadão, plataforma que hoje reúne mais de 3,4 milhões de usuários e está integrada a mais de 500 sistemas do Governo do Estado. Os números impressionam: são mais de 700 mil acessos por semana e aproximadamente 3 milhões de acessos por mês. Na prática, isso significa milhões de atendimentos que deixaram de acontecer em balcões, repartições e filas para acontecerem na tela de um celular ou de um computador.

Um bom exemplo é o Agenda ES, que sozinho concentra 41 serviços diferentes. Ali é possível agendar desde a emissão da Carteira de Identidade até atendimentos do Procon, serviços relacionados ao ICMS, IPVA, aquisição de veículos para taxistas e pessoas com deficiência, entre diversas outras demandas. Somam-se ainda os serviços digitais do Detran, os agendamentos da SESA, a consulta da situação vacinal pelo VeC-ES, a Nota Premiada Capixaba, programas como Nossa Bolsa, Jovens Valores e Seleção ES, além do E-Docs, Portal do Servidor, Dívida Ativa, Ouvidoria e centenas de outros serviços públicos disponíveis em poucos cliques.

Talvez o maior mérito dessa transformação seja justamente o fato de ela passar despercebida. Ninguém elogia um aplicativo bancário porque conseguiu fazer uma transferência em poucos segundos. Apenas espera que ele funcione. Com os serviços públicos acontece exatamente a mesma coisa. O sucesso da tecnologia está justamente em deixar de ser notícia para se tornar rotina.

Mas toda evolução traz novas responsabilidades. Se antes bastava guardar uma nota fiscal para completar um álbum de figurinhas, hoje é preciso proteger a própria identidade digital. Por isso, um dos recursos mais importantes disponíveis no Acesso Cidadão é a autenticação em dois fatores. Além da senha, o acesso passa a exigir um código temporário gerado por um aplicativo autenticador instalado no celular do próprio usuário. A configuração leva menos de um minuto e representa uma das formas mais eficientes de impedir acessos indevidos. Aliás, esse hábito deveria estar presente não apenas nos serviços públicos, mas também nos bancos, no e-mail, nas redes sociais e em qualquer plataforma que concentre informações pessoais.

O Espírito Santo talvez não imaginasse, em 1980, que aquela campanha de educação fiscal seria o primeiro capítulo de uma longa história de inovação no relacionamento entre Estado e cidadão. Naquela época, a tecnologia distribuía figurinhas. Hoje, conecta mais de 3,4 milhões de capixabas a centenas de serviços públicos e realiza milhões de acessos todos os meses sem que o cidadão precise enfrentar uma fila.

As figurinhas mudaram. O objetivo continua exatamente o mesmo: aproximar o cidadão do Estado. A diferença é que, quarenta e cinco anos depois, o prêmio deixou de ser completar um álbum. Passou a ser recuperar aquilo que vale muito mais: o nosso tempo.

Foto de Sandro Rizzato

Sandro Rizzato

Sandro Rizzato assina a coluna Arena Digital sobre tecnologia, inteligência artificial e empreendedorismo, escrita sem deslumbramento e sem discursos prontos, com a proposta de confrontar ideias, questionar o hype e analisar o impacto real da IA no trabalho, nos negócios e no comportamento humano. Com olhar crítico e provocativo, parte do princípio de que a tecnologia deve ampliar a capacidade humana, não substituí-la, e convida o leitor a sair do piloto automático digital para refletir sobre as transformações que influenciam decisões, produtividade, atenção e qualidade de vida.

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