Dos erros no alambique à melhor cachaça do mundo

Produzida em Aracruz, Dose Clássica venceu o World Drinks Awards 2026 após décadas de tentativas e aprendizado

Escrito por Redação

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O renomado master blender Nelson Duarte visita frequentemente o alambique da Dose Clássica e atesta a qualidade da bebida capixaba
O renomado master blender Nelson Duarte visita frequentemente o alambique da Dose Clássica e atesta a qualidade da bebida capixaba. Foto: Divulgação.

A cachaça capixaba Dose Clássica colocou o Espírito Santo no topo do mercado mundial de destilados ao conquistar o título de melhor cachaça do mundo no World Drinks Awards 2026, em Londres. O reconhecimento internacional coroou uma trajetória marcada por persistência, erros, aprendizado e mais de quatro décadas de dedicação do empresário Ralphe Ferreira Junior.

Produzida em Aracruz, a Dose Clássica venceu uma das mais importantes competições internacionais do setor com o rótulo Blend Nº 2 by Nelson Duarte. A bebida recebeu medalha de ouro e o título de World's Best Cachaça, tornando-se a primeira cachaça a alcançar o posto máximo da categoria na história da premiação.

A conquista se soma a uma coleção de medalhas acumuladas ao longo dos anos, incluindo reconhecimentos no Concurso Internacional de Bruxelas, considerado uma das maiores competições de destilados do mundo.

Uma história que começou com erros

O Alambique da Dose Clássica, localizado em Aracruz, fica bem próximo à praia, o que o diferencia da grande maioria dos alambiques, geralmente instalados em propriedades no interior
O Alambique da Dose Clássica, localizado em Aracruz, fica bem próximo à praia, o que o diferencia da grande maioria dos alambiques, geralmente instalados em propriedades no interior. Foto: Divulgação

A trajetória da marca começou em 1980, quando Ralphe decidiu comprar um alambique de aço inoxidável para produzir cachaça. Sem experiência no setor, as primeiras tentativas não deram certo.

“Eu nunca tinha feito cachaça, mas tinha vontade de investir na produção. Na primeira tentativa, eu joguei o caldo de cana direto dentro do destilador e do outro lado saiu só vapor, não saiu nada!”, relembrou.

Ele conta que desconhecia etapas básicas do processo. Depois de instalar a serpentina indicada por quem fabricou o equipamento, conseguiu obter um líquido que, segundo ele, estava longe de ser uma cachaça. Mais tarde descobriu que também era necessário fermentar o caldo de cana.

“Eu pensava que era coisa fácil e simples de fazer, mas vi que dava muito trabalho e exigia muito conhecimento técnico, por isso desisti”, afirmou.

As dificuldades não pararam por aí. Em determinado momento, especialistas visitaram a propriedade onde hoje funciona o alambique, no distrito de Santa Cruz, em Aracruz. Segundo Ralphe, os técnicos avaliaram que o local não teria potencial para produzir uma boa cachaça e disseram que só prestariam assessoria caso o objetivo fosse o plantio de eucalipto.

Nem mesmo o pai acreditava no projeto. “Lembro dele dizendo para eu comprar a melhor cachaça que tivesse no mundo porque pra fazer uma própria daria muito trabalho. Mas tem aquela história né? Como todo bom filho é teimoso, teimei com ele e disse que um dia ainda iria fazer”, recordou.

O retorno após duas décadas

O alambique permaneceu parado por cerca de 20 anos até que um caseiro reacendeu o interesse de Ralphe pela produção.

Segundo o empresário, o funcionário afirmou que sabia como fazer cachaça e sugeriu o uso de fermento para pão doce. O resultado da primeira experiência, no entanto, também ficou longe do esperado.

“Eu tinha convidado uns amigos para beber minha primeira cachaça. Quando eu cheguei com o garrafão lá no alambique e dei pra eles só ouvia: que coisa horrível, Ralphe! Me derramaram cinco litros de cachaça na cabeça, era tanto álcool que eu estava quase morrendo afogado, não conseguia respirar!”, contou.

Apesar dos fracassos, ele decidiu continuar investindo em conhecimento e aperfeiçoamento. A insistência acabou transformando uma série de tentativas frustradas em um produto reconhecido internacionalmente.

Reconhecimento mundial

Considerado uma das principais competições do setor, o World Drinks Awards reúne especialistas e produtores de diversos países para avaliar destilados e cervejas por meio de degustações às cegas.

Nesta edição, apenas duas cachaças brasileiras chegaram à etapa final. A Dose Clássica superou as concorrentes e garantiu o principal reconhecimento da categoria.

No parecer divulgado pela organização, os jurados destacaram o equilíbrio da bebida. Segundo a avaliação, a cachaça apresenta “ótimo equilíbrio entre o destilado e o barril, harmonioso, com notas herbáceas e um toque amadeirado e picante”.

Planos para o futuro

A história da Dose Clássica continua sendo escrita em Aracruz. O alambique funciona em Santa Cruz, próximo ao litoral, em uma área pertencente à família de Ralphe.

O empresário criou um espaço para receber visitantes, finaliza um projeto de visitação guiada ao alambique e planeja implantar um restaurante com petiscos e degustação dos rótulos da marca.

Além da unidade de produção, a empresa mantém operações no Aeroporto de Vitória e em Jardim Camburi. A expectativa é ampliar a presença da marca nos próximos anos.

“Em cinco anos eu pretendo abrir, pelo menos, mais três lojas. Inicialmente no Espírito Santo e depois até fora do Estado. Nosso objetivo é continuar produzindo um produto de alta qualidade, com o qual as pessoas tenham prazer em beber e utilizar em seus drinques”, afirmou Ralphe.

 

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