Educação SIM!
O que San Miniato e Reggio Emilia nos provocam sobre educar

A cada vinda à Itália, a percepção sobre a educação da primeira infância se torna mais sensível e apurada. Aquilo que antes talvez encantasse pela beleza dos espaços, pela organização das rotinas ou pela delicadeza dos ambientes, aos poucos passa a revelar camadas mais profundas: a concepção de criança, a intencionalidade dos adultos, a escuta presente nos gestos cotidianos e a forma como uma sociedade escolhe cuidar de seus pequenos desde os primeiros anos de vida.

Na faixa de zero a três anos, especialmente, essa atenção se mostra ainda mais necessária. Trata-se de uma etapa marcada por descobertas silenciosas, linguagens em formação, vínculos, movimentos, expressões, gestos e pequenas conquistas que, aos olhos apressados dos adultos, podem passar despercebidas. Observar essa fase da vida requer tempo, sensibilidade e presença.

Na Itália, a educação dos bebês e das crianças parece nascer de uma compreensão profunda: elas não são apenas alguém em preparação para o futuro. Já são presente. Pensam, sentem, elaboram, investigam, convivem, criam cultura e participam do mundo com suas próprias formas de expressão.

Essa percepção ganha ainda mais força diante de experiências como as de San Miniato, na Toscana, e Reggio Emilia, na região da Emília-Romanha. Embora sejam abordagens distintas, ambas revelam uma concepção potente da infância, na qual crianças são reconhecidas como sujeitos ativos, competentes e pertencentes a uma comunidade educativa.

Em San Miniato, o pensamento de Aldo Fortunati ajuda a compreender a educação infantil como um projeto coletivo. Não se trata apenas de uma escola organizada para receber crianças, mas de uma cidade, uma comunidade e uma rede de adultos que assumem os primeiros anos de vida como responsabilidade comum. A criança é vista em relação: com educadores, famílias, espaços, objetos, tempos da rotina e a cultura ao seu redor.

Essa abordagem valoriza a participação familiar, a organização cuidadosa dos ambientes, a escuta cotidiana e a construção de um currículo vivo, possível e contextualizado. Os espaços por exemplo, nesse contexto, não são neutros. A luz que atravessa as janelas, a disposição dos materiais, a estética dos ambientes, os registros das produções infantis, a organização da mesa e a postura dos adultos diante das crianças comunicam uma ideia de educação e revelam uma escolha pedagógica.

Portanto, de acordo com a abordagem de Fortunati, educar não significa antecipar conteúdos ou acelerar etapas. Significa criar condições para que cada criança possa viver plenamente sua infância, experimentando o mundo com segurança, autonomia, beleza e vínculo.

No contexto de Reggio Emilia, a referência central é Loris Malaguzzi, educador italiano que transformou a forma de pensar a infância ao defender a imagem de uma criança potente, criativa e portadora de múltiplas linguagens. Para Malaguzzi, ela não se expressa apenas por meio da fala. Comunica-se também com o desenho, o corpo, o gesto, o silêncio, a música, a brincadeira, a construção, a imaginação e a investigação.

É daí que nasce uma de suas ideias mais conhecidas: as cem linguagens da criança. Essa concepção rompe com uma visão limitada da aprendizagem, centrada apenas na transmissão de conteúdos, e abre espaço para uma pedagogia da escuta, da pesquisa, da arte e da documentação. O educador deixa de ser somente aquele que ensina e passa a ser também quem observa, interpreta, provoca, registra e aprende com o grupo.

Ademais, o ambiente ocupa lugar central. O espaço é compreendido como um terceiro educador. Ele não apenas abriga as experiências: participa delas. Elaborado, este provoca curiosidade, favorece encontros, estimula perguntas e convida a criança a explorar o mundo com todos os sentidos.

Observadas em conjunto, San Miniato e Reggio Emilia oferecem uma provocação importante para a nossa realidade. No cenário brasileiro, a pressão por produtividade tem empurrado a escolarização cada vez mais cedo. Não é raro encontrar creches em que crianças de dois e três anos já passam parte do dia sentadas preenchendo folhas de atividades, treinando o traçado de letras ou repetindo numerais antes mesmo de dominarem o próprio corpo no espaço. A antecipação rouba tempo de brincar, e o brincar não é pausa do aprendizado: é a forma como a criança pequena aprende.

Em tempos marcados pela pressa, produtividade e antecipação cada vez maior da escolarização, essas experiências italianas nos lembram que os primeiros anos de vida precisam de tempo. Tempo para olhar, tocar, tentar, errar, repetir, imaginar, conviver e elaborar.

A aprendizagem acontece nas sutilezas e, por isso, depende de adultos atentos, ambientes generosos e uma pedagogia capaz de reconhecer a potência dos pequenos acontecimentos. A educação dos primeiros anos, nesse sentido, demanda mais do que planejamento. Pressupõe uma cultura de respeito à infância. Pede adultos disponíveis para escutar, espaços preparados com intencionalidade, famílias envolvidas e uma comunidade consciente de que cuidar das crianças é também cuidar do futuro coletivo.

Talvez essa seja uma das maiores lições que a Itália oferece ao mundo, e que se torna mais clara a cada retorno: educar a infância não é moldar a criança para caber no mundo adulto, mas reorganizar o mundo dos adultos para acolher, escutar e respeitar a sua potência.

Pois, a criança não é pequena em importância. Pequeno é apenas o seu tamanho diante da grandeza do que ela já é capaz de viver, sentir e construir.

Foto de Cândida Pereira

Cândida Pereira

Pedagoga, com especializações em Supervisão, Orientação Educacional e Administração, além de MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), especialização em Alfabetização e Letramento pela Universidade de Brasília (UNB). Mantenedora e diretora pedagógica há 25 anos, atua na gestão e no desenvolvimento de práticas educacionais. Pesquisadora da infância há mais de 12 anos, realiza estudos no Brasil e no exterior, com foco nos processos educacionais e no desenvolvimento infantil.

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