Em uma sociedade marcada pela velocidade das telas, estímulos imediatos e consumo rápido de informações, proporcionar à criança experiências profundas com a leitura, o teatro, a música, com as cirandas e diferentes formas de expressão tornou-se uma necessidade formativa e humana. Inserir a criança em uma rotina rica em narrativas, escuta, imaginação e linguagem significa ampliar sua capacidade de interpretar o mundo, desenvolver vínculos afetivos e construir repertório cultural e emocional, e isso vai mundo além de alfabetizar.
A infância aprende pela experiência. E é justamente no contato cotidiano com diferentes tipologias textuais contos, poesias, parlendas, receitas, músicas, bilhetes, histórias em quadrinhos, dramatizações e livros literários que a criança começa a compreender que a linguagem possui função social, estética, emocional e comunicativa. Antes mesmo de saber ler convencionalmente, ela já “lê” o ambiente, os gestos, as imagens, as entonações e os sentidos presentes nas relações humanas.
O educador e filósofo francês Georges Jean afirmava que “a criança entra na linguagem pela poesia”. Essa entrada não acontece apenas pelas palavras escritas, mas pelo encantamento, musicalidade, brincadeira e imaginação. Nesse sentido, práticas como roda de leitura, contação de histórias, teatro, cantigas e cirandas não são atividades complementares: são experiências estruturantes do desenvolvimento infantil.
O teatro, por exemplo, amplia a expressão corporal, emocional e simbólica da criança. Ao interpretar personagens, imaginar cenários e dramatizar situações, ela desenvolve empatia, criatividade, comunicação e percepção social. Já as cirandas e brincadeiras cantadas favorecem pertencimento, memória, ritmo, interação coletiva e construção cultural. Tudo isso contribui diretamente para a linguagem oral, a formação leitora e o desenvolvimento socioemocional.
Do ponto de vista teórico, diversos estudiosos respaldam essa prática. Lev Vygotsky defendia que o aprendizado acontece nas interações sociais e culturais. Para ele, o desenvolvimento da linguagem está diretamente ligado às experiências compartilhadas e ao ambiente cultural em que a criança está inserida. Quando uma escola cria uma rotina em que o livro circula naturalmente entre as crianças, ela está oferecendo ferramentas simbólicas fundamentais para a constituição do pensamento.
Emília Ferreiro, referência mundial nos estudos sobre alfabetização, também demonstrou que a criança constrói hipóteses sobre a escrita muito antes da alfabetização formal. Isso significa que quanto maior o contato com textos reais e significativos, maior será sua compreensão sobre o funcionamento da linguagem escrita.
Por isso, quando o livro deixa de ser um objeto isolado e passa a integrar a rotina da infância, seja na sala, no parque, na roda, no teatro, em casa ou nas relações familiares, ele se transforma em ponte para o desenvolvimento humano integral.
A criança que cresce ouvindo histórias, manipulando livros, dramatizando personagens e convivendo com múltiplas linguagens desenvolve habilidades cognitivas, sensibilidade, escuta, imaginação, autonomia e repertório emocional. Em tempos de superficialidade e excesso de estímulos rápidos, talvez uma das maiores resistências da educação contemporânea seja justamente preservar espaços de presença, narrativa, imaginação e encontro humano.
Ler para uma criança é, também, ensinar que ela pode imaginar outros mundos e, futuramente, transformar o seu próprio.





