O empresário brasileiro moderno deixou de ser apenas gestor. Virou estrategista internacional, ainda que nunca tenha tirado o passaporte da gaveta. Ele pensa como americano, produz como paraguaio e respira como brasileiro, o que, convenhamos, já exige preparo físico e certa tolerância a ambientes hostis.
Nos Estados Unidos, o jogo é direto, quase didático. O sistema não exige heroísmo, exige crescimento. Incentivos como a dedução acelerada de investimentos transformam o reinvestimento em uma decisão racional, não em um risco fiscal. O lucro não é punido, é reciclado. O Estado, nesse contexto, não disputa com o empresário; ele joga no mesmo time, ainda que de olho no placar.
No Paraguai, a lógica é ainda mais pragmática. Não há grandes discursos sobre inovação disruptiva ou revoluções tecnológicas. Há algo mais simples e, por isso mesmo, mais eficiente: previsibilidade. O modelo tributário enxuto, muitas vezes resumido ao “10-10-10”, não encanta pelo marketing, mas pela clareza. O empresário sabe quanto vai pagar, quando vai pagar e, principalmente, por que está pagando. Em tempos de incerteza institucional, isso não é detalhe. É vantagem competitiva.
E então chegamos ao Brasil. Aqui, o jogo não é de xadrez. É um labirinto onde as paredes se movem enquanto você tenta encontrar a saída igual jogo de escape roon. E, não raro, descobre que a saída também mudou de lugar.
A proposta de reforma tributária surge como promessa de simplificação, quase como um mapa entregue ao jogador perdido. Mas a dúvida incômoda permanece: estamos realmente simplificando o caminho ou apenas redesenhando o labirinto com linhas mais bonitas? Trocar nomes, unificar tributos, reorganizar estruturas pode até gerar a sensação de avanço, mas não altera o ponto central. O peso continua lá, apenas distribuído de forma diferente.
O empresário brasileiro não teme apenas o quanto vai pagar. Ele teme não saber se está pagando certo. E essa talvez seja a maior distorção do sistema. Nos Estados Unidos, o risco está no mercado. No Paraguai, está na operação. No Brasil, está na interpretação.
Enquanto lá fora se discute crescimento, aqui ainda se discute sobrevivência. Enquanto o americano decide onde investir, o brasileiro decide o que pode dar problema. O tempo, que deveria ser um ativo produtivo, vira combustível de obrigações acessórias, revisões fiscais, consultas jurídicas e uma vigilância constante sobre regras que mudam mais do que deveriam.
O efeito disso não aparece apenas nos balanços. Ele aparece no mapa. Empresas brasileiras começam a produzir fora não por falta de capacidade interna, mas por excesso de custo invisível. Não é fuga. É adaptação. Uma resposta silenciosa a um sistema que, em vez de impulsionar, exige contenção.
No fim, o empresário brasileiro virou um equilibrista curioso. Um pé no incentivo americano, outro na eficiência paraguaia, ambos tentando não afundar no solo instável da burocracia nacional.
A grande questão não é mais onde vale a pena investir. O mercado já respondeu isso em silêncio, com fábricas cruzando fronteiras e decisões sendo tomadas longe dos holofotes.
O que ainda fingimos não ver é que o problema nunca foi o empresário brasileiro. Nunca foi falta de coragem, nem de criatividade, muito menos de capacidade.
O problema é um sistema que trata crescimento como suspeita e lucro como confissão.
Enquanto os Estados Unidos premiam quem reinveste e o Paraguai acolhe quem quer produzir, o Brasil segue fiel ao seu talento mais peculiar: transformar quem gera riqueza em um potencial réu tributário, sempre a um detalhe, uma interpretação ou uma mudança de regra de distância de um problema.
E talvez seja essa a nossa maior contradição. Não é que o empresário esteja indo embora. É o sistema que, aos poucos, vai empurrando ele para fora, e depois se surpreende quando a cadeira fica vazia. E isso, é um caminho sem volta.
No fim das contas, o Brasil não perde empresas. Perde relevância. E faz isso com uma eficiência que, ironicamente, daria inveja a qualquer modelo tributário do mundo.





