Inovação
Está começando o momento da IA física
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Evandro Milet

Evandro Milet é consultor, palestrante e articulista sobre tendências e estratégias para negócios inovadores. Possui Mestrado em Informática(PUC/RJ) e MBA em Administração(FGV/RJ). É Conselheiro de Administração pelo IBGC, Membro da Academia Brasileira da Qualidade-ABQ, Membro do Conselho de Curadores do Ibef/ES e membro do Conselho de Política Industrial e Inovação da Findes. Foi Presidente da Dataprev, Diretor da Finep e do Sebrae/ES, Conselheiro do Serpro e Banestes. Tem extensa atuação como empresário, executivo e consultor em inovação, estratégia, gestão e qualidade, além de investidor e mentor de startups, principalmente deeptechs. Tem participação em programas de rádio e TV sobre inovação. É atualmente Presidente do Cdmec-Centro Capixaba de Desenvolvimento Metal-Mecânico.
Foto: Copilot

“O momento ChatGPT da robótica chegou”, disse Jensen Huang, fundador e CEO da Nvidia, a empresa com o maior valor de mercado atual, com mais de 5 trilhões de dólares, fazendo analogia com o impacto causado pelo lançamento do ChatGPT.

A robótica e a IA se desenvolveram em caminhos separados. A pesquisa em robótica se concentrou principalmente em sistemas mecânicos, incluindo motores, juntas e algoritmos de controle. Por outro lado, a pesquisa em IA se concentrou em raciocínio e aprendizado em ambientes digitais, incluindo grandes modelos de linguagem. Essa separação limitou o progresso na robótica de propósito geral. 

A IA avançou, nos últimos anos, com modelos capazes de gerar texto, imagem, código e respostas em linguagem natural. No entanto, uma nova etapa passou a ganhar atenção: a IA física, isto é, sistemas de IA que não apenas processam informações, mas também percebem o ambiente, raciocinam sobre ele e agem no mundo real por meio de sensores, atuadores, robôs, veículos, drones e outros dispositivos. 

Se a IA generativa ampliou a produtividade no ambiente digital, a IA física aponta para uma expansão da inteligência artificial em operações industriais, logística, mobilidade, agricultura, saúde, serviços, atividades domésticas e infraestrutura, além de abrir novas fronteiras científicas. 

A IA física faz a convergência da IA, IoT, visão computacional e robótica. Em outras palavras, refere-se a sistemas inteligentes capazes de perceber, entender e interagir com o ambiente físico, indo além de softwares que operam apenas em telas ou servidores. Diferentemente da IA tradicional, que lida com dados digitais, a IA física precisa lidar com gravidade, atrito, colisões, situações inesperadas e condições não estruturadas. 

Para entender melhor a relevância da IA física, vale compará-la com os outros dois tipos de inteligência artificial principais. A primeira é a IA generativa, focada em produzir conteúdos digitais, como texto, imagem, áudio e código, como nos ensinou o ChatGPT em 2022. A segunda é a IA agêntica, voltada à execução de tarefas digitais com mais autonomia, em crescimento vertiginoso na utilização de agentes autônomos atualmente. Já a IA física aplica percepção, raciocínio e autonomia ao trabalho no mundo material. Essa está apenas começando em atividades midiáticas, vencendo competições esportivas, fazendo malabarismos e nos espantando com a aparência humana, enquanto se espalha pelas ruas em alguns países com os veículos autônomos. 

Esse avanço também se conecta ao conceito de inteligência espacial. Fei-Fei Li, nascida chinesa, mas naturalizada americana, uma das cientistas de IA mais notórias da atualidade, argumenta que os modelos atuais são muito fortes em linguagem, mas continuam limitados quando precisam compreender espaço, contexto e relações físicas. 

Li afirma que, por mais que os modelos de linguagem dominem o texto, produzam código e gerem imagens, eles não entendem que o mundo tem três dimensões. Não sabem que a gravidade puxa os objetos para baixo, que a luz se comporta de determinada maneira, que um braço robótico precisa calcular força e equilíbrio para segurar uma xícara sem quebrá-la. Para Li, é a inteligência espacial que representa a próxima fronteira da IA. “A inteligência espacial vai transformar a forma como criamos e interagimos com os mundos real e virtual, revolucionando a narrativa, a criatividade, a robótica, as descobertas científicas e muito mais”, diz a cientista. 

O mercado de IA física pode atingir de US$ 500 bilhões a US$ 1,4 trilhão até 2035, com veículos autônomos representando quase metade desse crescimento. A implementação tende a começar com veículos autônomos e drones, seguida por automação industrial e robôs humanoides de uso geral. A China lidera a adoção, com mais de 85% das novas instalações de robôs humanoides em 2025, seguida pelos Estados Unidos. 

Para lidar com a IA física, as engenharias Mecatrônica, Elétrica/Eletrônica, Computação/Software e Mecânica são cruciais. Lamentável que, no Brasil, o ensino de engenharia esteja tão pouco prestigiado. Quando acordarmos, mais uma vez o momento de estar alinhados com a tecnologia de ponta terá passado. Poderemos usá-la , mas não participaremos do seu desenvolvimento.

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