Não é de hoje que o vereador Aylton Dadalto tem se afastado (e/ou sido afastado) cada vez mais da base do ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, e, por conseguinte, da base da atual prefeita, Cris Samorini (PP), mesmo sendo do Republicanos, o mesmo partido de Pazolini.
Em março, Aylton bateu de frente com o então prefeito e a gestão municipal, que queria adiar para dezembro a eleição da Mesa Diretora que comandará a Câmara no biênio 2027-2028, marcada para a primeira quinzena de agosto.
Todos os outros vereadores do Republicanos (Anderson Goggi, Luiz Emanuel e Davi Esmael) apoiaram a tentativa da gestão Pazolini de mudar a data.
Destoando da própria bancada, Aylton firmou o pé ao lado dos outros 15 vereadores que derrubaram esse movimento de adiamento da eleição interna.
E mais: Aylton foi um dos expoentes da campanha “Dalto em agosto”, defendendo não só a manutenção da data da eleição prevista no Regimento Interno como também a eleição do colega Dalto Neves (SD) para ser o próximo presidente – vereador que, decididamente, não tinha a preferência da administração de Pazolini.
A ruptura começou ali. Era iminente, inexorável… e agora se concretiza.
Na noite dessa quinta-feira (16), o segundo vereador mais votado em Vitória nas eleições de 2024 antecipou um posicionamento eleitoral que vai contra Pazolini e os interesses do próprio partido. Aylton declarou a esta coluna que tende muito fortemente a apoiar a reeleição do governador Ricardo Ferraço (MDB) na eleição para o Palácio Anchieta.
Estou trabalhando nisso. E devo me posicionar logo, logo. Mas, muito provavelmente, vou apoiar Ricardo.”
Mesmo sendo vereador do partido de Pazolini, não existe registro de declaração dele em apoio à eleição do ex-prefeito de Vitória para governador do Espírito Santo. E nem, pelo jeito, haverá. Agora, dá-se precisamente o contrário.
Aylton foi destituído da CCJ
A declaração do vereador, em diálogo com a coluna, veio após uma atitude que rescende a retaliação por parte do Republicanos (de novo: o partido de Pazolini).
Na tarde de quinta-feira (16), Aylton foi simplesmente destituído da posição que ocupava, desde o início do mandato, na mais importante comissão da Câmara de Vitória: a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), por onde passam todos os projetos protocolados na Casa de Leis.
Destituído por quem? Pelo vereador Luiz Emanuel, líder da bancada do Republicanos na Câmara de Vitória e apoiador declarado de Pazolini. Por conseguinte, destituído pelo próprio partido.
No início da tarde de quinta-feira, Luiz Emanuel comunicou ao presidente da Câmara, Anderson Goggi (também do Republicanos), a decisão partidária de substituir Aylton na CCJ por Davi Esmael (este, sim, correligionário e fiel aliado de Pazolini).
No ofício encaminhado ao presidente da Câmara, Luiz Emanuel pede rapidez na substituição e, basicamente, argumenta o seguinte: como líder da bancada, ele tem a prerrogativa de indicar os representantes dos partidos nas comissões permanentes da Casa. De fato, funciona assim, à luz do Regimento Interno.
Mas Aylton foi pego de surpresa. E não levou o golpe calado. Num reel postado no Instagram, o vereador protestou. Advogado, adotou a clássica retórica de afirmar uma conjectura ao mesmo tempo em que a nega: “Quero crer que não tenha sido uma retaliação!”
Isso ocorreu no fim da tarde. À noite, em conversa telefônica com o colunista, Aylton foi mais direto. Visivelmente indignado com sua retirada da CCJ, acusou o que classifica como “falta de diálogo”:
Não sei se foi retaliação. Mas, se foi, não tinha por quê. Para variar, foi sem diálogo!”
Perguntamos ao vereador, então, qual é seu posicionamento na eleição para o Palácio Anchieta. De modo mais objetivo: quem ele decidiu apoiar? Foi aí que veio a sinalização de apoio a Ricardo Ferraço (contrariamente, portanto, ao pleito de Lorenzo Pazolini).
De novo: “Estou trabalhando nisso. E devo me posicionar logo, logo. Mas, muito provavelmente, vou apoiar Ricardo.”
Perguntamos a ele, por fim, se ele acredita que a decisão do Republicanos de retirá-lo da CCJ tem a ver com essa sua tendência em apoiar a reeleição de Ricardo (contra Pazolini)
“Não sei se eles acham que já estou apoiando Ricardo”, respondeu o vereador, agora fora da CCJ (ou, no popular, “limado” do colegiado, pelo próprio partido).
Conclusão
Não há mais convergência política, certo?
Está claríssimo o lado escolhido pelo vereador – e o lado em que o Republicanos já o considera, ou já o posiciona.
Ninguém chegou a falar nisso, muito menos colocar os fatos neste termos… Mas a destituição de Ayltin Dadalto da CCJ pelo próprio Republicanos não deixa a menor dúvida: a ruptura oficial entre o vereador e sua legenda (por extensão, com Pazolini) é uma questão de tempo para ser formalizada.
Adendo
Vale lembrar que, por maiores que sejam as divergências, Aylton está legalmente atado ao partido. Não pode sair do Republicanos, sob pena de perder o atual mandato na Câmara de Vitória.
À luz da legislação eleitoral, mandatos de vereadores não pertencem aos mandatários, mas aos partidos pelos quais foram eleitos. Se Aylton quiser sair do Republicanos sem risco de perder o atual mandato, terá de esperar até a próxima “janela partidária” para vereadores, a ser aberta só em março de 2028… a menos que consiga, da direção estadual, uma carta de anuência para trocar de sigla “numa boa”.
Mas isso, no atual contexto, soa como uma hipótese remota.