O espetáculo Eremita retorna a Vitória para uma apresentação única no dia 12 de março, no Teatro Sônia Cabral, reafirmando o vínculo da obra com o público capixaba. Após sua estreia na capital, em outubro de 2025, e uma temporada de forte repercussão em Salvador, em 2026, o solo volta à cidade onde iniciou sua trajetória pública, agora consolidado pela recepção crítica e pelo amadurecimento artístico do processo.
A apresentação é gratuita e integra a programação do Festival Verão Cultural. Os ingressos serão distribuídos no local, no dia do espetáculo, por ordem de chegada.
Concebido e interpretado pelo ator capixaba Mateus Schimith, professor de interpretação da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o espetáculo tem direção de Antônio Apolinário e dramaturgia assinada por Fernando Marques. A obra articula mito, autobiografia e investigação corporal em uma linguagem poética e imagética que tensiona identidade e memória.
Entre o reflexo e o abismo
Descrito pela imprensa baiana como uma obra situada na “fronteira entre o reflexo e o abismo”, Eremita propõe uma travessia interior. Inspirado em mitos gregos como Narciso, Atlas e Sísifo, o espetáculo não se propõe a ilustrar narrativas clássicas, mas a tensionar suas imagens na construção de uma metáfora contemporânea sobre espelhamento, deslocamento e autoconhecimento.
A dramaturgia constrói uma arquitetura simbólica que entrelaça ficção e autobiografia, instaurando um jogo de espelhos no qual o reflexo não devolve apenas uma imagem — anuncia uma revelação. O personagem central atravessa desertos, mares imaginários e zonas de sombra, sustentando o risco de se perder para, talvez, se encontrar.
Em cena, a atmosfera é ritualística e atemporal. Com poucos objetos, o ator cria múltiplos universos, expandindo o espaço por meio da presença física, da elaboração imagética e de um trabalho corporal intenso. O espetáculo se configura como um mergulho nas próprias águas — um processo que arde, forjado em pesquisa, improvisação e corporeidades que insistem em se reinventar.
Processo criativo e pesquisa
Eremita nasce de um processo colaborativo que reuniu investigação dramatúrgica, experimentação cênica e aprofundamento corporal. A direção de Antônio Apolinário investe na ideia de deslocamento constante: um intérprete em atravessamento, que não fixa identidades, mas as tensiona e as coloca em estado de fricção.
A dramaturgia de Fernando Marques estrutura a obra como um percurso poético que evita respostas fechadas. Em vez de certezas, o espetáculo lança perguntas: para se encontrar é preciso se perder? É possível se perder por caminhos já conhecidos?
Essa construção sustenta uma cena que não se ancora em linearidade narrativa, mas em imagens, rupturas e estados de presença.
Repercussão crítica
Durante a temporada em Salvador, o espetáculo recebeu forte acolhida de público e crítica. O escritor, crítico literário e professor universitário Décio Torres Cruz, da UFBA e da UNEB, definiu a obra como um “fascinante espetáculo”, destacando que o texto realiza uma releitura dos mitos gregos para “nos mostrar a busca de um homem pelo seu ser na tentativa de se perder para poder se encontrar”.
Décio também ressaltou que a performance de Mateus Schimith é “simplesmente deslumbrante”, enfatizando sua capacidade de criar múltiplos universos cênicos com poucos elementos e produzir imagens de grande impacto poético.
Mais do que um espetáculo, Eremita se apresenta como uma experiência de encontro — um convite à escuta interior e à travessia entre o reflexo e o abismo.


