Quem mora em Vitória já deve ter reparado: as manhãs estão mais quentes, as noites mais abafadas e as chuvas mais fortes. Mas isso não é só impressão.
Um estudo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) analisou dados do clima da cidade entre 1961 e 2023 e revela mudanças importantes no jeito como o tempo se comporta na capital capixaba.
Como o estudo foi feito
O trabalho, chamado Mudanças climáticas observadas no município de Vitória (ES) entre 1961 e 2023, foi feito pelo geógrafo Vagner Siqueira Filho como TCC de Geografia, com orientação do professor Wesley Correa. Para entender as mudanças, os pesquisadores compararam dois períodos: 1961 a 1990 e 1991 a 2023, analisando temperaturas e volume de chuvas.
Segundo Siqueira Filho, estudos globais nem sempre mostram o que acontece em nível local, e é justamente isso que faz a diferença para o planejamento da cidade.
O que mudou no clima
O estudo mostra que, ao longo de seis décadas:
- As noites ficaram mais quentes, já que a temperatura mínima média subiu cerca de 1,3°C.
- Os dias também esquentaram, com a máxima média aumentando aproximadamente 1°C.
- E não é só calor: a precipitação anual cresceu cerca de 445 milímetros, com chuvas mais fortes e concentradas.
Ou seja, Vitória está enfrentando mais calor e chuvas mais intensas do que há 60 anos.

Chuvas fortes e risco de alagamentos
A pesquisa também aponta que os eventos de chuva intensa se tornaram mais frequentes. Isso significa que, mesmo que o volume total de chuva tenha aumentado, os períodos de chuva rápida e concentrada podem causar problemas como alagamentos e deslizamentos.
“Populações de bairros mais carentes sofrem mais com os eventos extremos. Quem mora em bairros mais ricos consegue se proteger melhor e buscar soluções para minimizar os impactos”, explica Siqueira Filho.
Ilha de calor e desconforto
Apesar de Vitória ter praias e ventilação natural, que ajudam a dispersar calor e umidade, o crescimento urbano e a verticalização aumentam o chamado fenômeno da ilha de calor.
“Você sai para trabalhar cedo com temperaturas altíssimas, e no dia seguinte enfrenta chuva forte que atrapalha até sair de casa. Isso afeta a saúde física e emocional. Áreas verdes e corredores de vento ajudam a criar microclimas mais confortáveis”, diz o pesquisador.

Estudo continua
Para o professor Wesley Correa, analisar essas mudanças faz parte do papel social da universidade. Ele lembra que o estudo pode ajudar gestores da cidade a planejar soluções, como: melhorar a drenagem, usar pavimentos que absorvem água, criar bacias de retenção, plantar mais árvores e jardins de chuva e desocupar áreas de risco.
O TCC foi desenvolvido no Grupo de Pesquisa em Climatologia (GPC/Ufes), usando ferramentas reconhecidas internacionalmente.
Vagner Siqueira Filho pretende continuar a pesquisa no mestrado e doutorado. “Quero estudar o clima do Espírito Santo de forma mais detalhada ou investigar outros problemas climáticos da capital usando diferentes bases de dados”, diz.


