São Domingos do Norte é uma das duas únicas cidades do Espírito Santo governadas por uma mulher – a prefeita Ana Malacarne (MDB). Ironicamente, na última segunda-feira (9), dia seguinte ao Dia da Mulher, o pequeno município do noroeste capixaba, com 9 mil habitantes, foi palco de um exemplo do que as mulheres ainda precisam enfrentar mesmo quando conseguem chegar aos espaços de poder. E mesmo dentro dos espaços de poder.
Nas dependências da Câmara Municipal, a vereadora Andressa Siqueira (MDB) sofreu uma agressão verbal de cunho sexual dirigidas a ela por um colega, o vereador Celso Padilha (Republicanos).
O fato ocorreu durante reunião da Comissão de Educação, Saúde e Assistência. Logo em seguida, durante sessão plenária da Câmara, Andressa subiu à tribuna e, logo no início do discurso, denunciou publicamente o colega, relatando o ocorrido.
Segundo a vítima – e pedimos escusas por reproduzir os termos chulos, mas é necessário para o pleno entendimento do caso –, durante a reunião da comissão, o vereador Celso Padilha se levantou com as pernas bem separadas e disse o seguinte para ela: “Os meus ovos precisam de liberdade”.
Ainda segundo Andressa, na mesma reunião, o vereador perguntou a uma servidora da Câmara se ela havia deixado para ele um “remédio pra levantar pau”.
Tudo foi testemunhado por outra vereadora (Moa, do Podemos) e pelo procurador-geral da Câmara.
No fim da mesma sessão, Andressa chegou a sofrer um desmaio. A prefeita Ana, em pessoa, assistia à sessão e, portanto, ouviu o discurso de Andressa sentada à primeira fila das galerias.
Quebra de decoro: reação contundente
A reação foi rápida e exemplar. Na terça-feira (10), dia seguinte ao episódio, a Mesa Diretora da Câmara, presidida por Serginho Tamanini (Podemos), protocolou uma representação em face de Celso Padilha, por quebra de decoro parlamentar.
De acordo com nossa apuração, o vereador abriu mão do seu direito de defesa, o que possibilitou que o rito fosse bem ágil.
Ainda na terça-feira, a Câmara realizou uma sessão solene em alusão ao Dia da Mulher, proposta pela vereadora Jô do Salão (MDB), que homenageou algumas mulheres do município de São Domingos do Norte. A prefeita Ana Malacarne compareceu e discursou em plenário. O vereador Celso Padilha não compareceu.
No dia seguinte, quarta-feira (11), em nova sessão, a Mesa Diretora submeteu ao plenário a representação contra Celso Padilha, sugerindo a pena de suspensão do mandato do acusado pelo período de 30 dias, sem remuneração.
A Câmara de São Domingos do Norte tem nove parlamentares (seis homens e três mulheres). Pelo placar de 7 a 1, os vereadores aprovaram a punição proposta. O afastamento por um mês já está valendo.
Na manhã desta sexta-feira (13), procuramos Celso Padilha. Falamos com ele por telefone. O vereador pediu que lhe enviássemos nossa pergunta por mensagem de texto, via aplicativo, o que fizemos. Só pedimos a ele sua versão dos fatos relatados pela vereadora Andressa.
Até a publicação deste texto, o vereador nada respondeu. O espaço segue franqueado para registro de sua defesa, e o texto será atualizado em caso de manifestação do acusado.
O discurso impactante de Andressa
Na segunda-feira, discursando da tribuna da Câmara, Andressa Siqueira relatou assim a agressão verbal sofrida:
“Hoje eu fui agredida e desrespeitada pelo vereador Celso Padilha. Estávamos em reunião de comissão, em que tivemos um posicionamento diferente: eu dele e ele de mim, como é natural. É natural termos divergências partidárias. Mas o vereador Celso me agrediu com uma falta de respeito. […] Abrindo as pernas, olhando pra mim, e disse: ‘Os meus ovos…’, a parte íntima, ele falou com estas palavras: ‘Os meus ovos precisam de liberdade’. Ai, que situação! E ele tá rindo, tá debochando pra mim! Disse, abrindo as pernas, do meu lado”.
A vereadora completou: “Antes, quando ele chegou, ele também disse a seguinte frase, perguntando se uma funcionária da Casa tinha deixado algum remédio ‘pra levantar pau’. Desculpem o palavreado, mas foi assim que ele falou. […] Foi algo assim. Está gravado.”
“Eu, como mulher, que ontem foi o Dia Internacional da Mulher, ser desrespeitada como eu fui hoje, agredida… Nós vamos tomar as medidas legais. […] Respeito é tudo!”
A mãe da vereadora assistiu ao discurso de Andressa, das galerias da Câmara. A vereadora também agradeceu ao marido pelo apoio.
As outras duas vereadoras de São Domingos do Norte, Moa e Rô do Salão, prontamente se solidarizaram com Andressa. “Me deram a mão e disseram que estão do meu lado. Pra mim é uma força inigualável vocês terem me dado essa mão, meninas. Muito obrigada!”, disse Andressa, ainda da tribuna.
“É inadmissível”, aparteou Rô do Salão. “Enquanto procuradora da Mulher, eu não vou aceitar isso.”
De fato, a chefe da Procuradoria da Mulher da Câmara assinou, ao lado do presidente da Mesa, uma nota oficial de repúdio, em nome da Casa, pela conduta de Celso Padilha.
“Se eu deixar acontecer, eu não vou quebrar a corrente”
Da tribuna, muito emocionada, Andressa desabafou:
“Ser agredida por um homem que deveria estar lutando por mulheres, que foi eleito, acredito eu, em sua maior parte, por mulheres… Eu estou muito chateada, muito triste, porque você ser desrespeitada é muito humilhante. Eu tenho certeza que nenhum aqui de vocês gostaria que acontecesse isso com uma mãe, com uma filha… […] Eu nunca fiquei tão abalada.”
Ela disse que se recusava a ficar em silêncio, pois isso significaria perpetrar a espiral de agressões misóginas.
“Eu não vou admitir isso, porque, se eu deixar acontecer, eu não vou quebrar a corrente. Vai acontecer com a Rosangela, porque é uma vereadora aqui. Vai acontecer com a Moa… Não! Chega! Vamos cortar! Vamos deixar eu ser a primeira, mas eu ser a última.”
Ela ainda se dirigiu a outras mulheres:
“Mulheres, eu acho que a gente pode estar onde a gente quiser. Não é porque hoje eu sofri essa agressão, esse desrespeito, que eu vou desistir, não! Não vou! Eu cresci no meio de homens lordes. Eu cresci sendo uma mulher guerreira, que não tem medo de nada, só de Deus.”
Por fim, dirigiu-se ao próprio acusado:
“Infelizmente, senhor Celso, o senhor fez uma coisa muito grave. O senhor tem esposa, e ela está grávida. O senhor não iria gostar que alguém falasse assim com ela.”
No final do discurso, a vereadora começou a chorar e pediu desculpas pela emoção.
Em seguida, o próprio vereador Celso subiu à tribuna. Após fazer alguns agradecimentos, ele começou a pedir desculpas públicas a Andressa, dando a entender que já havia se desculpado, ou tentado se desculpar, antes da sessão, com a vítima. “Quero mais uma vez pedir desculpa… mais uma vez. Posso ter me…”
Bem nesse instante, Andressa desmaiou em plenário. A sessão foi interrompida pelo presidente e parou de ser transmitida. Passado esse tempo, o presidente decidiu suspender a sessão por 48 horas, retomando-a na quarta-feira – já com a votação da denúncia por quebra de decoro contra Celso Padilha.
A nota pública de repúdio da Câmara
Em nota pública assinada pelo presidente e pela procuradora da Mulher, a Câmara Municipal de São Domingos do Norte declarou que “repudia veementemente quaisquer atitudes de desrespeito, intimidação, violência política de gênero, ofensas ou gestos que atentem contra a dignidade de parlamentares e contra o regular funcionamento das comissões e do plenário”.
Na nota, publicada na última terça-feira (10), a Câmara ainda reiterou “seu compromisso com um ambiente institucional seguro, respeitoso e democrático, pautado pela ética, pela civilidade e pela defesa intransigente do respeito entre representantes do povo”.
“Coragem para transformar o mundo”: o post sobre a sessão solene
Em seu perfil oficial no Instagram, a Câmara de São Domingos do Norte publicou fotos da sessão solene de terça-feira em alusão ao Dia Internacional da Mulher, com a seguinte legenda:
Na Sessão Solene em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a vereadora Andressa Siqueira celebrou uma noite especial de reconhecimento e inspiração. […] Um momento de emoção, respeito e valorização do protagonismo feminino. 💜 Que nunca falte voz, coragem e espaço para as mulheres transformarem o mundo.



